Como técnico em saneamento do lixo há mais de 30 anos, vi que até hoje foram muito poucos os artigos que de forma muito objetiva e realista abordaram corretamente a questão do lixo. Um desses foi o editorial da Folha do domingo último, que me gratificou profundamente. Penso, de há muito, por experiências já praticadas, que aterro sanitário de lixo (como solução isolada e única) nunca pode ser modelo de destinação correta, econômica, ecológica ou sanitária.
O aterro é anti-econômico desde o seu projeto inicial até seu custo diário de operação e manutenção. Ocorre que lamentavelmente existem interesses escusos e econômicos que conseguem manter um lobby desse sistema antiquado e nada ecológico de saneamento do lixo urbano.
O aterro não é ecológico pois tudo enterra e nada recupera. Só gera despesas e nenhuma receita. Nem mesmo gera algum ganho ambiental. O aterro não é sanitário. Principalmente em dias de chuva, os inconvenientes ambientais e operacionais predominam, poluindo ar, solo e água.
Lamentavelmente existem órgãos e instituições públicas e privadas que muito lucram impondo em muitos municípios esta forma superada de se destinar o lixo. Geralmente são tecnocratas, teóricos, que acham mais fácil elaborar um projeto de aterro sanitário (como solução única), com custo elevado, como se isso bastasse para o sucesso do plano.
Já dizia o saudoso professor e sanitarista Francisco Xavier Ribeiro da Luz: ‘‘Não adianta um projeto de aterro sanitário. O aterro quem constrói é o operador do trator de esteira, que não lê pranchas teóricas...’’ Como técnico e pesquisador ainda em Blumenau, desenvolvi tecnologia simplificada e dentro da realidade brasileira, para reciclar e processar o lixo orgânico.
Alguns bons exemplos conseguimos implantar de norte a sul, inclusive começando pelo Paraná. São os processos em atividade nas cidades de Cornélio Procópio (desde 1985), Arapongas (hoje uma referência nacional em trato com o lixo urbano), Assis, Araraquara, Petrópolis, Barbacena, Porto Alegre – dentre algumas cidades onde foram desenvolvidos alguns exitosos modelos de nosso pioneiro Sistema Sanecom (que tentam copiar).
A simplicidade da tecnologia, o baixo custo de implantação e operacional, comparado com o do aterro sanitário, foi sempre o motivo do desinteresse de alguns e o alvo da crítica de outros. É um sistema que bem gerenciado se auto sustenta e reaproveita 80% do lixo urbano. É uma simplificação de sofisticados sistemas de reciclagem existentes em países desenvolvidos. Ao invés da plena automatização, otimizamos o aproveitamento da mão-de-obra disponível na realidade brasileira. Porém, o resultado da reciclagem é o mesmo, com aproveitamento máximo dos resíduos recicláveis e orgânicos do lixo urbano.
Hoje, lamentavelmente, vimos se disseminar pelo Estado do Paraná, financiado pela Sudhersa e pelo governo do Estado, projetos de aterros sanitários, que como era de se esperar, estão se tornando novos lixões projetados. Não há essa solução única, sem que tenhamos que começar pela coleta seletiva e a triagem em esteira do material reciclável.
A concepção do empreendimento estadual foi errônea e incompleta. Vejam os exemplos lamentáveis de Andirá, Astorga, Rolândia, Apucarana. Nestas cidades foram investidos recursos públicos em projetos recentes, em obras que não estão sendo operadas por problemas pelos quais os municípios beneficiados não são responsáveis. A responsabilização é da má concepção dos projetos e da má vontade em estimular a reciclagem, seja com a coleta seletiva e a macrotriagem.
Ainda: o aterro sanitário não é nem mesmo uma solução para o problema social. No processo de reciclagem, os ‘‘catadores’’ se transformam em operadores do processo de saneamento. Saneamento ambiental e social.
- MAURO RODRIGUES MELLO é tecnólogo em Saneamento e secretário de Serviços de Arapongas
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