Direita e esquerda – estes antigos e problemáticos operadores do discurso político parecem estar mais vivos do que nunca. Se não, fulminemo-los com algum discurso mais eloquente do que o comentário pós-eleitoral de senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), para quem é preciso dar aos inimigos, não um tapete vermelho, ‘‘mas um tapete que escorrega’’ (numa alusão, sabe-se lá de que cor, à atitude pró-petista de Mário Covas). ‘‘Nós jamais estaremos ao lado do PT’’, reconheceu com todas as letras.
Um plebiscito de segundo turno não precisa, por certo, ter esta polarização. Mas, de leste a oeste, de norte a sul, foi o que se viu nas grandes cidades do País. Ora, se a esquerda sempre se reconheceu como tal, será preciso invocar seu testemunho para mostrar o consenso entre os principais atores da cena atual? E Curitiba, que tem com isso? Parece-nos que aqui está em jogo a mesma clivagem do resto do País, mas talvez a esquerda não esteja tão claramente a par disso quanto a ‘‘direita’’ (para quem, por cortesia, as aspas sempre caem bem).
Por que Ângelo Vanhoni recebeu tão expressivo número de votos? Há quem diga ser apenas um ‘‘protesto’’ contra Lerner. Acredite se quiser que quase a metade dos curitibanos votou no candidato do PT – insistentemente tachado, na campanha, de ‘‘candidato do MST’’ – de modo irresponsável, sem saber do que se trata. E mais: acredite se quiser que o mesmo fenômeno, em escala nacional (a despeito das realidades muito particulares de cada município), não deverá corresponder a alguma percepção do eleitorado (seja mais precisa ou menos) de que, a despeito das variadas demonizações em curso, o Brasil e a sua cidade possuem problemas sociais em flor, cuja solução, historicamente adiada, não mais pode esperar. Não deixe de notar que o prefeito eleito, refeito do susto, se apressou em entender o recado das urnas como a necessidade de adotar as melhores propostas do adversário.
Mas terá o nosso prefeito reeleito fôlego para fazer as ações públicas propostas e iniciadas ao longo do segundo turno, dentre outras tantas, perdurarem pelos próximos quatro anos? A disputa apertada em Curitiba foi vencida por um forte trabalho de ‘‘militância’’ – e incluamos nesse termo tanto a ação de uma classe média ‘‘à droite’’ que saiu às ruas, quanto o numeroso e bem alimentado exército que o PFL convocou em toda a parte para vencer, por todos os meios, a estratégica batalha local.
Quem será convidado para a grande festa das tradicionais famílias curitibanas em favor da qual tal militância milita? O modelo administrativo até então rotineiro parece apresentar limites novos, seja porque os problemas sociais cresceram, seja porque há novo grau de exigência de parte do eleitorado, que perdeu o medo e agora considera possível uma aposta na famigerada ‘‘esquerda’’, com base no que vem ocorrendo noutras cidades. Curitiba, também aqui, não é cidade européia. Escolherá novamente o prefeito expedientes mais brasileiros quando os problemas sociais reflorescerem, como fez ao fechar as muralhas da cidade para o MST?
Do outro lado, o PT curitibano recebeu, no primeiro turno, uma injeção inesperada e volumosa de votos, que o fez encabeçar, com uma campanha cheia de adoçante, a oposição a Lerner (que se compunha também de candidatos com menos mesuras, como Maurício Requião). Sozinho no segundo turno, porém, o partido de Vanhoni demorou a perceber, se percebeu, que sua estratégia eleitoral despolitizada lhe renderia um revés. Foi vítima de sua própria confusão entre forma e conteúdo, denúncia e agressividade, e apenas conseguiu reacender a militância (à qual foi desordenadamente se agregando um número crescente de simpatizantes dispersos) com o comício de Lula na Boca Maldita. Neste sentido, as limitações do PT (especialmente sua falta de percepção para o vetor político que o impulsionou nas urnas) terão sido, talvez, tão ou mais decisivas do que o poder dos expedientes do PFL paranaense que, por muito pouco, apesar de tudo, não foi derrotado no seu mais tradicional reduto político.
Quais as consequências imediatas desse processo? Um fato importante dá-se no nível estadual: embora Lerner tenha reacendido seu projeto nacional, enfrentará uma sinuca política, pois a oposição nunca criou um denominador político tão coeso nas principais cidades do Estado. É difícil vislumbrar como a concentração de poderes em Curitiba possa (se não pela força de um ufanismo duvidoso) vencer o desgaste que tal grupo já vem sofrendo há tempos graças à mesma centralização política na capital. Sorte de Lerner, ao que parece, que esta eleição tenha sido municipal, pois isso lhe dá tempo.
Já em Curitiba, os votos sufragados ao PT sinalizam para um espaço até então desconhecido onde pode se instaurar um discurso alternativo sobre a modernização da cidade, menos gasto que o discurso oficial. Ocorreu, para surpresa de todos, a descoberta de uma cidade desconhecida dentro da cidade, um contingente desarticulado mas expressivo que o PT curitibano possui como capital imediato, do qual só poderá usufruir, contudo, se tiver agilidade e abertura para um amadurecimento político correspondente ao que parece ter ocorrido, por conta própria, com o eleitorado – se tiver, em suma, como ouvir o recado das urnas.
- LUIZ EVA é Doutor em Filosofia e professor universitário de Filosofia em Curitiba