A polarização que marcou de forma taxativa e perigosa as eleições majoritárias de 2018 não terminou com o resultado das urnas. Pior. Ela se agravou. As discussões ideológicas travadas nas redes sociais e nos grupos de whatsapp infelizmente extrapolaram a fronteira do ambiente virtual, abriram grandes feridas no ceio familiar, abalaram amizades e transformaram o País em um território onde a intolerância à opinião contrária virou regra de convivência.


Conforme mostrou reportagem publicada pela FOLHA na edição de segunda-feira (15), o radicalismo que envolve as discussões político-partidárias no Brasil chegou ao nível extremo, a ponto de superar a média internacional de 27 países observados em uma pesquisa do Instituto Ipsos. Ou seja, estamos menos propensos a aceitar as diferenças em relação às demais nações relacionadas no estudo.


O levantamento quantificou o tamanho de nossa intolerância. Por mais assustador que possa parecer, 32% dos brasileiros acreditam que não vale a pena conversar com pessoas que tenham visões políticas diferentes das suas. Apenas dois países são mais refratários do que nós: Índia (35%) e África do Sul (33%). A pergunta que deve ser feita a partir desse resultado, que na prática apenas confirma em números o que é facilmente perceptível, é: a quem interessa tanto radicalismo?


Ora, o país cuja imagem mais vendida no exterior é a de ter um dos povos mais acolhedores com as diferenças, o país de todas as cores e credos, de todas as classes e ideologias, onde a pluralidade costumava ser praticada diariamente, quase que instintivamente até, está retrocedendo em seus valores. Atualmente, não conseguimos mais nem dialogar em família ao redor da mesa em nossos lares.


Chama a atenção na pesquisa do Instituto Ipsos o fato de os cerca de mil brasileiros entrevistados são majoritariamente pessoas de centros urbanos, com salário e nível educacional superior à média nacional.


Ao comentar o estudo, o CEO da Ipsos Brasil, Marcos Calliari, destacou que o principal efeito observado no País está relacionado ao questionamento no qual 39% dos entrevistados brasileiros acreditam que pessoas não mudarão de opinião mesmo com evidências contrárias apresentadas.


Se não somos capazes de reconhecer os pontos positivos em nossos semelhantes, compreender que é preciso e possível absorver no outro algo que possa nos completar como seres humanos é sinal de que fracassamos no processo evolutivo da espécie dita como a mais inteligente do planeta.

mockup