Aproveitando as lições de Bioética, pauto-me em três pensadores e trago aos leitores subsídios que busquei na teoria para refletir sobre a questão citada no título.
Em primeiro lugar, a ética do discurso de Habermas, que tem seu ponto forte em soluções consensuais para os problemas da sociedade, usando sempre o discurso e a argumentação com alicerce na razão. A argumentação não deve ser o que ele chama de ação estratégica, na qual o indivíduo que argumenta esconde a sua real intenção para obter algum benefício ou resultado. Se alguém esconde a sua intenção, é porque quer usar o outro para a obtenção de algum fim.
Em segundo lugar, em Schopenhauer encontramos as três motivações fundamentais para a ação humana: o egoísmo, que quer seu próprio bem; a maldade, que quer o mal alheio; a compaixão, que quer o bem-estar alheio.
Por último, o maravilhoso Ivan Capelatto, autor do livro ''Diálogos sobre a afetividade: o nosso lugar de cuidar'', em entrevista à Rádio Universidade FM, definiu dois tipos de conflitos: conflitos que impulsionam a vida e conflitos que geram a morte.
Ao governo do Paraná, em uníssono com o governo federal, interessa muito que façamos greve nas universidades públicas. Parece-me que a verdadeira intenção (vide Habermas) é ''minar'' o ensino público. Se possível, não ter vestibular mesmo, para ir diminuindo o número de alunos que recorrem às escolas públicas. Um pai não deixará seu filho perder um ano e fará qualquer sacrifício (leia-se pagar uma faculdade) para que ele possa estudar. O ensino privado se fortalece, busca na Universidade Pública gradativamente seus melhores professores/pesquisadores, acenando com bons salários.
Assim, a cada impasse de greve vamos esvaziando as universidades públicas de alunos e de professores, até que ela chegue ao ''auto-abandono''. Eu diria que os governos têm duas motivações: o egoísmo que quer seu próprio bem e a maldade que quer o mal alheio (Schopenhauer). Vejo o conflito gerado pelo governo descaso pelos salários e pela manutenção das universidades como um conflito de morte (Ivan Capelatto).
Vamos agora à postura dos sindicatos. Esta ''teimosia'' em ver a greve como único instrumento de pressão, as diretorias dos sindicatos como as únicas ''aptas'' a negociar e não ter a sensibilidade de entender que assembléias vazias podem querer dizer descrédito na forma de luta e não descaso pela causa legítima (em greves legitimadas pela comunidade lotávamos literalmente o Ginásio do Centro de Esportes da UEL), leva a crer que a eles também interessa a greve. Parece-me que, no caso, uma das intenções seria desgastar os governos estabelecidos para tentar ocupar o máximo de espaço tanto no governo federal, estadual e reitorias (Habermas). Aqui penso que existem os ''bem-intencionados'', crentes de que o seu partido político é o único que virá ''salvar'' os países pobres do liberalismo político, e os outros, fascinados pelo poder. Os primeiros teriam talvez duas motivações para agir: a compaixão e a maldade (Schopenhauer). Os segundos, o egoísmo e a maldade (Schopenhauer) - exatamente as mesmas dos nossos governos, como já citado. Como esta compaixão me parece querer ''o bem-estar alheio'' impondo-o, teríamos uma compaixão desprovida de tolerância das diferenças. Assim, penso que o conflito gerado pelos sindicatos também é um conflito de morte, como diz Capelatto.
Particularizemos agora sobre os administradores da UEL. Tivemos o agravante de que uma ''seminova'' administração, digo reitor, vice-reitor, assessores e coordenadores, assumiu pouquíssimo antes do início da greve, embora os membros do Conselho Universitário já fossem antigos nos cargos. Missão principal: organizar comissões que trabalhassem para livrar ou redimir a UEL da corrupção. Louvável, trabalho duro de todos os envolvidos, só que um outro fato, no mínimo tão importante quanto, aconteceu: o impasse entre governo e sindicatos.
Entendo que a missão número um por si só é de difícil viabilização, mas precisamos mudar o curso da nau, pelo menos por alguns momentos, quando a tempestade nos surpreende. ''A gente põe e a vida dispõe'', citou Ivan Capelatto durante a entrevista. É papel da administração da Universidade (repito: Conselho Universitário, reitor, vice-reitor, assessores) atuar com comprometimento na resolução da greve, pois os representantes foram democraticamente escolhidos (pressupõe-se livre-arbítrio, sem coação) por nós, comunidade universitária, ou indicados pelo reitor, no caso atual também legítimo, pois foi indicado pelo órgão máximo da Universidade, o Conselho Universitário, que é eleito pela comunidade.
Pelo ''laisser-faire'' correm o risco de trabalharem na intenção de resolverem somente o problema deles, isto é, o compromisso de apresentar os relatórios das citadas comissões e ponto (vide Habermas). O abandono da UEL é completo, físico e moral. Correm o risco também de estarem sendo motivados pelo egoísmo (Schopenhauer) e portanto serem colaboradores no conflito que gera a morte (Ivan Capelatto): a morte da universidade.


- OLIVIA MARCIA NAGY ARANTES é professora do Departamento de Biologia Geral da Universidade Estadual de Lodrina

mockup