A queda de braço de Serra e Tasso
Tasso ou Serra, quem ganhará a coroa da candidatura presidencial pelo PSDB? Vale reconhecer que estes são os dois nomes tucanos de maior peso. Como a política navega no mar das circunstâncias, não se pode desconsiderar outros perfis, como o do ministro da Educação, Paulo Renato, e até mesmo outro, não necessariamente tucano, se vingar a tese de que o candidato pode sair de qualquer partido da base governista. A hipótese é pouco provável, mas a ameaça de uma derrota dos partidos situacionistas, ante a união dos oposicionistas, poderia abrir espaços para a escolha do melhor nome dentro da composição governista.
Fiquemos, porém, nas alternativas Tasso e Serra. A escolha, entre eles, levará em consideração aspectos macropolíticos, questões internas do partido, qualidades pessoais e o dedo do maior eleitor, o presidente da República. Nos aspectos gerais, levar-se-á em conta a capacidade de articulação dos candidatos quanto ao apoio dos partidos aliados, principalmente PMDB e PFL. O PMDB tem um candidato próprio à Presidência, o senador Pedro Simon, que começa a se empolgar.
Se crescer na opinião pública, terá o PMDB força suficiente para demovê-lo da candidatura? Itamar Franco, que reingressará no partido, também pleiteia a candidatura. E agora?
Portanto, Serra terá pela frente o desafio de desmontar as candidaturas próprias do PMDB, arrebatando seu apoio. Trata-se de uma tarefa quase impossível, sabendo-se que o PMDB é uma agremiação cheia de grupos, muitos dos quais querem se despregar do governo. Tudo vai depender da capacidade da cúpula em administrar a reação de setores peemedebistas incrustados principalmente em Minas Gerais e em São Paulo.
Como reagirá o PFL ante o namoro de Serra com o PMDB? Com muito tiroteio, como já vem ocorrendo. Mas Tasso poderá receber o apoio do PFL. Nesse caso, a disputa, sob o aspecto da articulação, ficará empatada, e os dois pré-candidatos se desdobrarão para captar o apoio dos outros partidos da base.
Os apoios darão a Serra e Tasso um posicionamento conceitual dentro do arco ideológico. Um estará mais inclinado à esquerda, outro, à direita. Eles terão que lutar muito para explicar que sua identidade é a melhor para a sociedade. No atual estágio de conscientização social, a banda esquerda abre mais espaços de simpatia. A banda direita é satanizada, daí o cuidado que Tasso deve ter. Os outros aspectos relacionam-se às qualidades pessoais, dentre elas o preparo intelectual, a simpatia, a fluidez de expressão, a visibilidade, os climas e ambientes que os cercarão.
Serra tem mais cultura técnica, em razão da densa experiência de economista e administrador público. Trata-se de pessoa preparada, com boa capacidade de emissão de idéias. É exímio na arte de articulação de bastidores. Corajoso, enfrenta grandes grupos econômicos. Encarna, de certa forma, forças sociais emergentes do sudeste. Tasso tem forte experiência administrativa, visão mais genérica sobre o País e um layout pessoal que o carimba como moderno e integrado. Trata-se de um empresário que deu certo na política. Tem carisma, certo brilho pessoal. Não é tão conhecido como Serra, e precisa desvendar as selvas do Sudeste. O empresariado tem mais simpatia a Tasso do que a Serra.
A questão da visibilidade será resolvida, pois estarão na cabeça da mídia. O discurso, esse sim, terá de chegar até as bases da sociedade, saindo do meio, onde ambos transitam com certa facilidade. Além desses desafios, terão de unificar o sistema governista. Isso poderá ser feito, de alguma forma, por meio da negociação do cargo de vice-presidente na chapa. Também entrarão na composição nomes para formação do ministério e outras indicações-chave.
Fosse essa a equação, a solução seria bastante simplificada. Mas as circunstâncias, o ambiente político e social do País, nos meados de 2002, o tamanho do Produto Interno Bruto da Infelicidade (PIBI), as dificuldades regionais, tudo isso influenciará.
A propósito, José Serra é antipatizado em algumas partes do Nordeste. A região contabiliza 27% dos votos do País. Tasso poderá atrair as forças do Sudeste, a partir de um apoio-chave: Mário Covas. Se o governador paulista continuar a ter força efetiva entre os tucanos, lá pelos idos de março e abril do próximo ano, Tasso poderá levar a melhor. Mas o eleitor-chave será o presidente. Principalmente, se a economia e o PIBI estiverem bem. Oportuno avisar: a maior rebelião de presos na história do País é um tiro de canhão no coração do governo Covas com respingos na cara do governo FHC.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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