O Brasil está mudando. Devagar, é verdade. Tanto que se descobriu, só agora, o que poderia ser feito há pelo menos 70 anos, que a regulação tributária é, também, instrumento indispensável à reforma agrária. Uma espécie de ‘‘estalo de Vieira’’, que já deixou os corsários do latifúndio babando e fazendo ameaças na base do ‘‘dá ou desce’’ com a emenda da reeleição.
Agora veio a história da quarentena ética para servidores estratégicos: o governo os pagaria durante dois anos, mas os impediria de uma volta súbita ao mercado. Vimos presidentes deixarem o poder e assumirem o comando de multinacional, ministros na mesma onda (lembro de um das Comunicações que driblou a lei que impedia a entrada de produto com similar nacional e na sequência virar presidente da empresa beneficiária, a NEC, hoje abrasileirada) e alguns até saírem de escritórios de transnacionais para o governo.
A regra deveria ser abrangente: dirigente ou mesmo integrante da hierarquia superior do Banco Central, Receita Federal e equivalentes sofreriam isso que os antigos romanos chamavam de ‘‘capitis diminutio’’. Havia um regramento da Ordem dos Advogados do Brasil que impedia que pelo menos num prazo mínimo de dois anos ex-juízes e ex-procuradores de justiça advogassem e por razões óbvias: afinal detinham espaços, poder de manobra, não conferíveis aos seus colegas e competidores da planície.
No Brasil tivemos casos seguidos nesse governo FHC do Milton Dallari, xerife dos preços, e do Henrique Hargreaves, operando com empresas suas com clientes dos organismos que dirigiam. Isso, aliás, é comuníssimo por aqui. Vide a propaganda oficial, esquema com agências de propaganda e veículos neste e em todos os governos. Vide as ‘‘consultorias’’ supostamente técnicas feitas por áulicos e ‘‘companheiros de viagem’’. Vide a homologação pelo Cássio Taniguchi das concorrências ou coletas de preços, como dirigente do Ippuc e da Urbs, em favor da sua empresa.
Para essas patologias não adianta legislação, pois se não são filtradas, sequer, nos tribunais de contas e aceitas como normalidade não há o que fazer. De qualquer modo a simples preocupação com a quarentena não deixa de ser um avanço. Pelo menos no discurso o que faz lembrar o axioma de La Rochefoucauld: ‘‘A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude’’.
BIZARRICE - ‘‘Quem tem que responder agora por propaganda irregular é o Tribunal Regional Eleitoral, por haver lançado minha candidatura a governador fora de época.’’ Frase típica do senador Requião nos atos de defesa do seu mandato cassado, por unanimidade, pelo TRE.
SPRAY - Paraná tende a ocupar uma posição no ranking dos casos de cisticercose cerebral e ocular: a frequência está alarmando os estudiosos. Agora um dos fronts de contaminação vem da horticultura com o hábito de alguns produtores de usarem o chorume, resíduo das pocilgas, como fertilizante, aspergindo-o sobre a cultura diretamente. - Preocupação aumenta com a moda dos restaurantes vegetarianos, embora a maioria destes se valha do máximo rigor na aquisição de verduras e legumes, às vezes até originários de produção própria. - Baixou a temperatura da disputa entre o casal Prosdócimo depois da publicação de avisos em jornais em defesa da privacidade, atingida obviamente pelos editais que ambas as partes divulgaram na imprensa e que alimentam especulações de variada natureza. - Governo estadual tem um plano sério para a previdência dos seus servidores e contratou, para tanto, a empresa Jessé Montello Serviços Técnicos em Atuária e Economia Ltda com notória especialização (o que afasta a exigência de licitação). - Consultor e conselheiro ministerial e de estatais (Eletrobrás, Coelba-Companhia de Eletricidade da Bahia, da Light, Celesc, Cemig, Cesp, Copel etc), Montello, desde junho deste ano, está trabalhando nessa mudança que está para ser anunciada em breve: um fundo de pensão que tire das obrigações orçamentárias o pagamento com aposentadorias e outros benefícios. - Última experiência foi um desastre no governo Requião que entrou em conflito com o Conselho Curador que estranhava a taxa de remuneração abaixo do mercado com o dinheiro aplicado no Banestado. O consultor de Requião foi o ex-ministro da Previdência, Rafael de Almeida Magalhães. - Como descobrir fraudes na empresa, eis o tema de um curso do Senac de 2 a 6 de dezembro das 19 às 22 horas. Outros cursos (das 19 às 22h30) se referem a gerenciamento da pequena empresa, importantíssimo face aos estímulos presidenciais na área tributária, e telemarketing.
FOLCLORE - Quando há cenas de comoção em cemitério, não me esqueço da ocorrida no sepultamento do pioneiro da Universidade do Paraná, Victor Amaral: quando o corpo ia descendo à cova, houve o grito do médico Tarciso Gazire: ‘‘Não enterrem este homem que ele está vivo.’’ Feita a pausa e aproximando-se, disse: ‘‘Vivo nos nossos corações’’. E foi por aí adiante, num discurso em que mandava mensagens para outros que se foram desta para a melhor, como João Cândido.
De cemitério, uma das melhores ocorreu no da Água Verde, quando o falecido Edgar Antunes da Silva, o eterno Tatu do Operário, ao comandar um grupo de amigos, percebeu que estava seguindo o féretro errado.
CROMO - E essa foto de primeira página: na estrada, as tribos que migram do Zaire e no alto, entronizado, um anúncio da ‘‘Sempre Coca-Cola’’. É o contraponto do consumo e da juventude em meio ao horror sem saída. Como imaginar, e isso já propus mais de uma vez, a economia de mercado no Burundi ou socialismo na Etiópia?

mockup