A partir de um enfoque convencional, a mudança de milênio marca o topo do progresso humano. Entretanto, um quinto da humanidade continua vítima da miséria material. Para a maioria das pessoas que vivem em sociedades capitalistas avançadas, a vida nunca foi tão confortável. Contudo, pesquisas sociológicas revelam que a última metade do século de riqueza sem precedentes também viu uma redução da felicidade e do bem-estar por parte de seus beneficiários.
Somente entre os poucos pobres que tiveram a sorte de conseguir um progresso material significativo, o dinheiro produziu um aumento substancial na satisfação vital. Para o resto de nós, o incremento de nossas posses somente produziu uma sensação de decrescente bem-estar. Em seu novo estudo sobre este enigmático fenômeno, intitulado ‘‘A perda da felicidade nas democracias de mercado’’, o sociólogo da Universidade de Yale, Robert Lane, analisa décadas de pesquisas em nível nacional que buscam medir a felicidade e o bem-estar pessoais, avaliados pelos próprios entrevistados.
Sua pesquisa reforça os indícios largamente citados por críticos sociais de que a satisfação de nossas necessidades materiais básicas apenas intensificou nossas ânsias de obter algo mais. Mas, o que é esse ‘‘algo mais’’, ainda um mistério para aqueles mais afetados por este insaciável desejo? Lane vê nas sociedades capitalistas avançadas ‘‘uma pobreza de espírito em meio a grandes êxitos sociais’’. A crença comum de que o dinheiro traz a felicidade leva as economias de mercado a gerarem cada vez mais riqueza. Entretanto, também nos priva da verdadeira satisfação pela qual sacrificamos a parte mais importante de nossas vidas.
Em nenhum outro lado, essa irônica situação é demonstrada mais penosamente do que nos Estados Unidos, onde os pesquisadores encontraram, no último meio século, tanto o maior aumento de riqueza como o maior descontentamento com o que a vida oferece. Como isso é possível? O que ocorre, afirma Lane, é que ‘‘o mercado faz as pessoas infelizes’’. Os valores e as mensagens transmitidas pelas sociedades capitalistas cultivam a insatisfação com relação a si mesmo e à sua própria condição, com o combustível emocional essencial para o crescimento econômico.
Incrustado em quase tudo o que compramos, existe um par de efeitos terrivelmente contraditórios. Como um refresco adocicado, que primeiro mata a sede e, depois, a intensifica, grande parte do que compramos nos proporciona um rápido alívio, mas, imediatamente, uma igualmente rápida reaparição da ânsia. O ato de ir às compras transforma-se numa experiência essencialmente criadora de dependência. Numa cultura que leva à aquisição, a prosperidade transforma-se numa doença social. Tanto a ideologia do livre mercado quanto as onipresentes mensagens da publicidade inculcam a inconsciente convicção de que a felicidade, que por longo tempo nos evitou, será, finalmente, encontrada em nossa próxima compra.
Entretanto, a pesquisa indica claramente que aqueles que têm tal crença são os que mais provavelmente estão destinados a sofrer com problemas de saúde, relações humanas insatisfatórias, e maior ansiedade e solidão. Embora os ricos e poderosos sejam a inveja dos demais cidadãos, na realidade, estão entre os mais empobrecidos emocionalmente, pois frequentemente são empurrados para o êxito por um pulsante sentimento de incapacidade ou insuficiência pessoal.
Então, o que realça a sensação de bem-estar? O companheirismo, diz Lane. Os que respondem às pesquisas indicam que as boas relações com os amigos, a família e os colegas de trabalho são coisas mais satisfatórias do que o dinheiro e as posses. Entretanto, quando lhes é pedido que façam uma opção, a maioria escolhe a obtenção do êxito profissional. Com suas exigências ferozmente competitivas, o mercado nos isola das pessoas queridas e dos companheiros de trabalho, embora nos convide a nos unirmos a uma falsa ‘‘família’’ empresarial. Como consumidores, habitamos um universo cada vez mais despersonalizado de compras ‘‘on-line’’ ou através do correio, que é secamente eficiente para nos prover de tudo, menos da intimidade que, inconscientemente, desejamos.
As democracias de mercado podem ser consideradas responsáveis por assegurar o bem-estar emocional de seus cidadãos? Ou, finalmente, o estado de nossas mentes é um assunto estritamente pessoal? A idéia de felicidade individual como principal aspiração na vida é relativamente nova na história humana e é alcançada apenas em condições de relativa prosperidade. Inclusive, não é hoje compartilhada pelas culturas asiáticas, que dão maior valor à harmonia.
Não é de se esperar que alguma sociedade possa nos proporcionar algo tão pessoal e efêmero como a felicidade, que frequentemente não podemos encontrar por nós mesmos. Ainda que as economias de mercado não possam nos fornecer esse bem, poderiam pelo menos evitar que se cultivasse o descontentamento que ataca nossa sensação de bem-estar. O desapiedado mercado atual cresce à beira dos mercados camponeses que ainda podem ser encontrados em algumas partes do mundo subdesenvolvido e que, junto com o comércio, proporcionam ocasiões para a convivência e a sociabilidade.
O recente renascimento dos mercados camponeses e dos ‘‘mercados de pulgas’’ no centro das cidades assinala um esforço para voltar a um estilo de intercâmbio e de interação mais íntimo, mais parcimonioso e mais autêntico. Um assalto frontal contra o mercado comercial moderno é certeza de fracasso. No entanto, o que condiz com nosso poder é tentar curar a patologia pós-moderna do excesso de consumo. É tanto uma escolha pessoal quanto de toda a sociedade. Ocupar-se mais com os demais do que com as coisas não nos custa nada além de nosso tempo e representa mais benefício para nós mesmos.
MARK SOMMER é escritor e dirige o Mainstream Media Project, nos Estados Unidos

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