A propósito de uma data - Wilmar Klein
A propósito de uma data
Wilmar Klein
Hoje é o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Amanhã será o Dia do Citricultor. Depois de amanhã, o Dia do Porteiro e também do Tenista. Dia 12 será o Dia dos Namorados. 13, do Turista. 17, do Funcionário Público Aposentado. 18, do Químico. 21, da Mídia. 29, da Telefonista e do Pescador. Quem se importa?
E julho tem dia do Propagandista de Laboratório (14), do Amigo (20), da Vovó (26), do Despachante (27) e até da Pizza (10) - que, aliás, era como, nos tempos dantanho, tudo acabava neste país: em pizza. (Mas, é claro, isso não acontece mais, não é mesmo? Além do que você nem pegou essa época, certo? ... Porém isso não acontece mais aqui na Dinamarca.)
Voltando às datas... Dois pontos. E DAÍ? Tirando o Dia dos Namorados, que interessa ao comércio e, inclusive, aos namorados (embora para eles todo dia seja dia), as demais datas afiguram-se ou muito restritas (por serem datas classistas - e por vezes alusivas a classes que nada têm a comemorar), ou meramente oportunistas, ou simplesmente despropositadas, ou, como acontece com o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, é data demasiado abstrata ou auto-encomiástica - somando-se ao auto-elogio (do tipo vejam como nós prezamos a liberdade de imprensa, reparem como nós exercemos essa liberdade com responsabilidade - como se isso fosse favor...) uma certa afetação, quando se escolhe o tom de indignação épica ante o cerceamento da liberdade em cento e não sei quantos países e a esperança de que, num futuro de justiça universal (que - está implícito - não existirá sem a contribuição do autor do indignado e esperançoso texto), a liberdade, essa deusa radiante, por fim triunfará (e isso, diga-se de passagem, não é jornalismo, e sim literatura ordinária).
Disse também que era data abstrata porque naqueles países, na prática, nem existe no calendário e, de qualquer modo, não se tem liberdade para sequer apontar e deplorar a falta dela. Assim, o que a esse respeito de escreve nos demais países não chega lá ou, se chega - mais ou menos clandestinamente e acessível a uns poucos ou com restrições - não tem o poder de mudar nada. O povo sem liberdade cala, e o mais frequente é que se acostume com isso, ou, se se insurge e não é esmagado, não raro é apenas vitorioso para trocar um tipo de opressão por outra (mesmo a coisa não sendo tão simplista e esquemática, não se pode esquecer que à Revolução Francesa seguiu-se o Terror, à Revolução Russa seguiu-se Stalin, à Revolução Popular em Cuba, um ditador perpétuo - e por aí vai). Talvez não baste, para o exercício responsável da liberdade de imprensa, saber que ela tem limites - tantos limites legais quanto (menos observados) limites morais - é preciso também uma certa humildade para reconhecer que ela pode menos do que se julga capaz e o jornalista não é o Super-Homem disfarçado de Clark Kent.
Se tem uma coisa óbvia que o jornalista precisa lembrar sempre (e, não obstante, costuma esquecer) é que ele não é o dono da verdade e nem juiz. O que se espera dele é que tenha talento e escrúpulos, que seja objetivo, que cumpra o seu dever de informar, e o faça o melhor e mais claramente possível. Se fizer isso - e tal é a sua obrigação - estará usando bem a liberdade de que dispõe. Caso contrário, ele a sacrificará, seja por vaidade, seja por ambição.
E, é claro, espera-se que o jornalista recuse todas as oportunidades de ser hipócrita, ainda que por uma causa nobre como é a liberdade de imprensa.
- WILMAR KLEIN é jornalista e articulista da Folha





