A propósito da tal escola progressista - Leila Moraes Godoy
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de julho de 1998
Leila Moraes Godoy 
Porque a Folha publicou o artigo do professor Ildo Carbonera, de Foz do Iguaçu, na edição de 22 de julho, não posso deixar passar a oportunidade de responder, observar, avaliar. A imprensa propicia o diálogo, a dialética, a contradição. Ninguém é dono da verdade. E tampouco escrevo encastelada na academia. Também não gritei contra o regime militar. É que o grito pode afetar a visão. E vi que naquele tempo também havia violência, estupro, fome, favela, negros x brancos, baixos salários, injustiças sociais. Deixemos a pieguice saudosista de lado.
A propósito da tal escola progressista (vilipendiada nas imagens do colega que vive no aconchego de Tarobá e Naipi) lembro sem sabor pedagógico, que o termo é de Georges Snydes. É usado para identificar críticas, que da realidade social vêm a sustentar a teleologia sócio-política no processo educativo. A aludida tendência não escapa à classificação de Libâneo. Desdobra-se mesmo em um matiz libertador, apregoado por Freire, e em um cariz de crítica social de conteúdos.
A atividade pedagógica é (ou deveria ser) centrada na discussão de temas sociais, políticos. Com efeito, busca-se a participação na luta social. Não se grita, não se berra. Não se lamenta o passado. Aliás, esse historicismo saudosista é bem a gosto de perspectivas totalitárias. Os prosélitos de Vargas, Salazar, Franco e outros que o digam... Com saudades, ia me esquecendo.
A escola progressista vislumbra o homem como visão de mundo, como um agente atuante na história, crítico. Talvez, a professora Edviges (e todos nós tivemos uma) cumpriu sua missão, seu papel. A pós-modernidade agressiva, violenta, competitiva, globalizada, fria, infecta, apertada, imunda, repele o giz, a tabuada e a memória de elefante. O mundo quer críticos, agentes transformadores, até indisciplinados. A indisciplina é um grito de angústia. Afinal, o espaço vivente não é o quartel, o ambiente castrense, como pregam os saudosistas. O espaço que dividimos é aquele pedaço de uma utopia que quer se rasgar em nome da disciplina, cujo conteúdo é vazio, indeciso, paradoxal, ambíguo. Respeitar a quem? Por quê? A autoridade começa a ser legitimada. Conquista-se, não se impõe.
Fala-se muito na práxis transformadora. Para Luckesi, é o elemento estruturante de uma nova era educacional. A escola progressista não é causa. A desinformação generalizada (que não é culpa dos progressistas) é que resiste à transformação. Prefere chorar o passado a viver o presente.
Foi-se muito além. Afinal, a qualificação, conhecimento científico de conteúdos, formação ético-político, axiologia, superaram do comum, do tradicional, do teórico, enfim, todas as categorias desenhadas por Aranha, um volume de aspectos que não pode ser simplificado no pieguismo da saudade, no maniqueísmo do ontem, na tópica e no lugar comum do eu acho que foi melhor. Será que foi mesmo?
Má administração das tendências educacionais é realidade virtualmente diversa da proposta e do modelo das próprias tendências. Criticou-se a enchente, esqueceu-se da chuva. Também é preciosismo invocar-se trecho do Hino Nacional para qualificar-se o pesquisador, o teórico, que mesmo do gabinete não dorme em berço esplêndido. Tem tempo para ler jornal, mesmo quando se publicam inverdades. Afinal, são opiniões. E opiniões devem ser debatidas. É o que apregoa a tal escola progressista.
- LEILA MORAES GODOY é docente de Didática Geral na UEL (Universidade Estadual de Londrina)


