A água doce não pode ser privatizada e ser objeto de lucro. Este é o princípio universal regulador do uso desse recurso hídrico que sustenta a vida humana, animal e vegetal. Um princípio que naturalmente não funciona dessa forma, porque a água é vendida in natura, é utilizada para o fabrico de bebidas, a indústria e os serviços de higiene e limpeza a convertem em objeto de lucro, a agricultura consome 50% da água doce do planeta e desperdiça metade desse volume pelo mau uso, e o próprio poder público a trata e a comercializa, e a corta de quem não paga. O tema vem a propósito da decisão do governador Roberto Requião de enviar projeto de lei à Assembléia Legislativa proibindo a privatização da exploração e da distribuição da água no Estado. A medida se estriba na admissão, ocorrida no Governo Jaime Lerner, do grupo privado Dominó como sócio da Campanhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e que representa uma presença incômoda para o atual governador. Requião está apelando aos prefeitos recentemente eleitos (ou reeleitos) que só renovem o contrato de concessão com a Sanepar, se incluída uma cláusula estabelecendo que tal acordo só terá validade enquanto a estatal for gerida pelo Governo do Estado. O fundamento da intenção governamental é afastar o poder desse consórcio, que é formado pela Construtora Andrade Gutierrez, Banco Oportunity e um grupo capitalista francês. É defensável a posição de Requião quanto à salvaguarda da água, por via do controle exclusivo do poder público, o que significa o controle implícito da sociedade sobre esse patrimônio do planeta e bem natural da humanidade. Não obstante razões de ordem política que movem o governador com respeito à questão, a administração da água doce, e da água potável especificamente, é incumbência do Estado, para que esse recurso hidríco não escape do controle e não caia em mãos de especuladores. Tal poderá não parecer importante se ignorarmos que já há saque de água do rio Amazonas, feito através de navios que vêm praticando essa hidro-pirataria. Os olhos grandes sobre aquela região brasileira não ocorre apenas pela sua biodiversidade, mas também pela enorme quantidade água boa que corre pelo rio-mar. Só pelo fato de 97,5% da água do mundo ser salgada, restando bem pouco para o consumo orgânico humano e animal, a sociedade deve fazer coro com os governos e instituições, entre elas a CNBB, que fazem a defesa dos já escassos recursos hídricos utilizáveis. A contaminação das águas dos rios e lagos, no Brasil, quintuplicou-se nos últimos dez anos, e esse líquido já é objeto de cobiça. Analistas afirmam que os países que tiverem domínio sobre a água (e não tanto o petróleo) terão o domínio do mundo. Os recursos hídricos são de controle da Agência Nacional da Água, que é autarquia do Ministério do Meio Ambiente, e o Ministério da Saúde estabelece os procedimentos de responsabilidade relativos à vigilância sobre sua qualidade para o consumo humano e animal. Alguns Estados já criaram leis próprias sobre o planejamento da utilização racional desses recursos. Constitui, portanto, uma atribuição e dever do Estado o propósito do governador Requião de não permitir que escape do Estado o poder de controle sobre eles.

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