Teme-se que amanhã Paulo Maluf já esteja em liberdade, se for seguida a tradição brasileira de que homens de grande poder econômico e político não ficam muitos dias atrás das grades. E também não faltam os que enxergam na prisão de Maluf um oportunismo para desviar as atenções dos demais escândalos que estão ocorrendo no núcleo governamental, na Câmara Federal, no âmbito do PT e agora também envolvendo a figura individual do presidente daquela Casa, Severino Cavalcanti – que deve renunciar ou ser deposto da função por estes dias. É uma hipótese que não se descarta. E uma terceira corrente também admite que a decisão de colocar Maluf na cadeia ocorra no embalo da atual crise política, gerada por tantas vergonhas reveladas e propiciando, portanto, a oportunidade de uma tal medida. Certo é que a velha raposa política está sob guarda dos ferrolhos do cárcere, junto ao filho Flávio. A detenção emana de denúncia do Ministério Público Federal encaminhada à Justiça Federal de São Paulo, e estriba-se na acusação de corrupção passiva contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, e ademais por dificultar as investigações. Outras duas pessoas são citadas: o doleiro Vivaldo Alves, acusado de enviar dinheiro da família Maluf a paraísos fiscais, e Simeão Damasceno, denunciado por divisão de propinas – estes dois podendo ser beneficiados pelo instituto da delação premiada. Num momento de tanta indignação popular contra desmandos dos governantes e da impunidade que tem imperado, a prisão de Paulo Maluf sôa como um refrigério para a mente da nação e uma esperança de que, afinal, comece a se implantar no Brasil a moralidade pública. Um novo desapontamento pela sua eventual soltura, sem que esquente o banco da cela, é um risco possível, mas ao menos a Justiça chegou a um ponto de conclusão, a da culpabilidade desse político, que desafiava o império da lei e que parecia ter a segurança de que era infenso a condenações e a dormir na cadeia. A prisão demonstra que prender um homem tão poderoso é possível, malgrado possa a elasticidade encontrável na legislação brasileira colocá-lo em liberdade, pelo favorecimento de inusitadas interpretações das instâncias superiores da Justiça. Cabe às cortes mais elevadas do Poder Judiciário, em momentos como este, a aplicação da suprema sapiência, também vasta em idêntica elasticidade, de forma a não permitir que cresça a descrença nas instituições e mais se robusteça a corrente da impunidade.

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