Se nem todos foram libertados, as figuras exponenciais presas na última operação da Polícia Federal mal entraram no xadrez e já ganharam liberdade. Isso aparenta que há várias legislações no Brasil, porque, estribados na lei e depois de longa investigação, os policias federais conseguiram colocar atrás das grades o banqueiro Daniel Dantas, o investigador Naji Nahas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e mais 14 outros; e também amparadas em dispositivos da legislação ocorreram a seguir as libertações. Ontem Dantas foi novamente detido, pela captação de novas provas e de um testemunho contra ele. No início da noite, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, atendendo a pedido de habeas corpus mandou soltar Pitta, Nahas e mais nove pessoas.
  Ao comum dos cidadãos escapa o alcance de entender tais procedimentos, mas se ocorrem é porque existem as brechas legais, e mediante o poder do dinheiro para patrocinar bons defensores a bandidagem da categoria mais graduada se safa. A investigação que levou a essas prisões começou com o mensalão (o pagamento de propinas a parlamentares para favorecer interesses governamentais e também a particulares). O escândalo de agora já poderia ter vindo à tona três anos atrás, mas a ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, concedera liminar impedindo à então CPI dos Correios - detonadora do mensalão - que tivesse acesso aos dados contidos em disco rígido apreendido de um computador do banco Oportunity (de Dantas), suspeito de financiar aquele esquema. Só o Ministério Público Federal, em São Paulo, que fora designado para a investigação, conseguiu aval da Justiça Federal para saber o que o disco continha.
  Foi o conteúdo dessa gravação que levou à operação de agora, mas mexer com os poderosos é sempre uma árdua missão e pode resultar vã, ou quase. Os dados revelaram indícios de operações fraudulentas - envolvendo esse grupo - uso indevido de informação privilegiada, operação ilegal de instituição financeira, lavagem de dinheiro, evasão de divisas para paraísos fiscais, fraudes com ações, desvio de recursos públicos, corrupção ativa e formação de quadrilha. Essa gangue teria movimentado valores rondando 2 bilhões de dólares. Segundo a Polícia Federal, há pelo menos 3 anos os grupos de Dantas e Nahas se associaram para promover desfalques, manipular o mercado financeiro por via de informações secretas e fazer remessas irregulares para as Ilhas Cayman. Pitta é apontado como um dos que se beneficiaram do mensalão.
  A caçada foi espalhafatosa - mas todas elas resultam em cobertura da mídia, incluindo os casos de bandidos comuns - e o que a opinião pública lamenta, cheia de razão, é que todo o esforço policial reverte praticamente nulo, por causa das solturas. Como disse o senador Pedro Simon, cadeia no Brasil é só para o povão.

mockup