Paulo Briguet
Pinochet voltou para o Chile.
Ronald Biggs continua livre.
O Bandido da Luz Vermelha saiu da cadeia para morrer.
Sérgio Naya passou férias em Miami.
Os matadores de Eldorado dos Carajás estão soltos.
Os metralhadores do Carandiru, também.
Collor quer disputar eleição.
O Barbosa, não. O Barbosa ficou preso durante 50 anos. Só saiu da cadeia às 22h30 da última sexta-feira.
Ele foi o goleiro do Brasil na Copa de 50. Tomou o segundo gol de Gigghia, aos 34 minutos do segundo tempo. Brasil 1 x 2 Uruguai: dizem que o País nunca viveu uma tristeza tão grande.
O problema é que Barbosa não cometeu nenhum crime. Não foi Luz Vermelha, não foi Biggs, não foi Naya, não foi Pinochet, não foi Collor. Não matou, não roubou trem, não metralhou ninguém, não construiu edifícios que caíram, não torturou, não mentiu aos brasileiros.
Barbosa apenas tomou um gol. E sua pena foi a maior que de todos os bandidos poderosos que vemos em nosso dia-a-dia, malandros a fugir das investigações, gaiatos a manobrar bem-pagas equipes de advocacia, caras-de-pau a roubar o dinheiro público para conforto privado. Gente que vive (indiretamente ou não) a matar, a violentar, a torturar, a pisar nas cabeças desprevenidas, e depois ainda a contratar marqueteiros para encher urnas de votos e contas de verdinhas. Barbosa não fez nada disso: ele não tinha marqueteiro, ele não tinha caixa de campanha, ele não conheceu verbos e substantivos malditos. Ele conhecia – e bem – apenas o verbo defender. Foi execrado porque não conseguiu conjugá-lo no presente do indicativo naquela tarde de 16 de julho de 1950. E o substantivo bola morreu no fundo da rede.
Certa vez, Barbosa disse mais ou menos o seguinte:
– Se eu tivesse matado um homem, eu já teria cumprido pena. Mas eu tomei aquele gol, e até hoje não me perdoam.
Só a pena de morte da natureza – inevitável sentença que paira sobre a cabeça de todos nós – deu a merecida paz ao herói Moacir Barbosa.
Herói – sim, senhor. Diante da implacável mística da derrota, poucos reconhecem que Barbosa foi um grande goleiro. Talvez um dos maiores goleiros que o Brasil já teve, como atestam os velhos conhecedores do futebol. E acrescento: como homem e autêntico mestre da camisa 1, manteve a dignidade e a compostura que o País não soube ter em 50 anos. Aliás, em 500 anos.
Mas o pessoal não deixou o Barbosa em paz. Ele, sozinho, teve que procurá-la. Conheço a Praia Grande, onde Barbosa viveu seus últimos dias. Na orla, o atleta de 79 anos deveria contemplar o sem-fim do oceano, com a visão de fora cansada, mas com a visão de dentro que só os grandes goleiros sabem ter, procurando aquela bola que um dia lhe escapou.
Na sexta-feira, ele a encontrou.
Durma em paz, goleiro.
- PAULO BRIGUET é redator da Folha.

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