A primeira fila
Hildegard Angel (filha de Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel) acompanhou a sessão de julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de março de 2025
Hildegard Angel (filha de Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel) acompanhou a sessão de julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro
João dos Santos Gomes Filho 
Leio, nas mídias digitais que costumo acessar, um encontro marcado com a história, que aconteceu hoje, 25 de março de 2025, nas poltronas iniciais do plenário de acesso da Primeira Turma do Supremo, onde se processa a audiência de recebimento da denúncia contra o Messias.
Hildegard Angel (filha de Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel) acompanhou a sessão de julgamento. Aqui a história encontra a própria história. Justiça poética? Vamos dar uma direção ao sentido que a frase me tomou...
Stuart Angel era um estudante de economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, que combateu a ditadura militar enquanto membro do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Acusado de ser um dos sequestradores do embaixador norte-americano no Brasil (Charles Burke Elbrick), Stuart foi preso, torturado e assassinado por membros do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa), em 14 de junho de 1971.
Os militares, mentirosa e convenientemente, negaram o seu assassinato, sustentando a fake news mais popular da época: Stuart seria um ‘desaparecido político’.
Zuzu Angel (Zuleika de Souza Netto), mãe de Stuart, foi e segue sendo personagem grandiosa de nossa história, em especial da ditadura. Grande estilista, descendendo de família humilde mineira (Curvelo), deixou um trabalho inovador na moda e se caracterizou pela incessante busca pelo corpo do filho (Stuart).
Zuzu, ainda adolescente, mudou-se com os pais para Belo Horizonte, onde iniciou-se nas costuras, fazendo uso de retalhos que sobravam dos tecidos de sua mãe. Tempos depois, a família mudou-se para Salvador, onde a riqueza da cultura afro-brasileira estampou as cores quentes na visão de Zuzu, influenciando decisivamente seu estilo.
Morando no Rio e casada com o estadunidense Nornam Angel Jones, Zuzu teve três filhos (dentre os quais Stuart e Hildegard). Já separada em 1970, abriu em Ipanema um ateliê de modas e deslanchou em sua carreira.
Com o desaparecimento de Stuart, ela travou verdadeira guerra com os militares, na busca pelo corpo do filho. Zuzu levou sua guerra aos Estados Unidos, criando uma coleção toda voltada para estampa com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos, onde se destacava um anjo, ferido e amordaçado nas estampas, o que simbolizava seu filho assassinado pela ditadura militar de 1964.
Zuzu realizou um desfile-protesto no consulado do Brasil em Nova York. Havia uma legislação ditatorial vigendo à época, que impedia o cidadão brasileiro criticar o Brasil no exterior. Como o consulado se caracteriza por ser solo do país no exterior, a engenhosidade de Zuzu foi eficaz e ela fez a mais severa crítica artística à ditadura.
Nem é preciso dizer que o consulado foi pego de surpresa pelo tema do desfile. A NBC estadunidense fez uma filmagem deste desfile, que a ditadura conseguiu junto ao tio san não exibir. Todavia, anos depois, esse filme foi encontrado nos arquivos da TV Cultura em São Paulo.
Por fim, em setembro de 1971, sua luta pelo resgate do corpo do filho Stuart chegou aos jornais internacionais, com estrondosa manchete no canadense The Montreal Star: "Designer de moda pede pelo filho desaparecido". Na sequência, cinco dias depois, o Chicago Tribune estampou a seguinte manchete: "A mensagem política de Zuzu está em suas roupas".
A busca de Zuzu pelo corpo de seu filho tem fim com a morte da estilista. Em abril de 1976, na estrada da Gávea (hoje rebatizada com o seu nome), na saída do túnel Dois Irmãos, seu Karmann Ghia TC derrapou, saindo da pista, colidindo com a mureta de proteção, capotando e caindo ladeira abaixo.
Antes de morrer (semanas antes), Zuzu deixou com Chico Buarque um documento que deveria ser publicado, caso algo lhe acontecesse. O documento escrevia: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos de meu amado filho".
Em 2014, todavia, a Comissão Nacional da Verdade chegou à confirmação do assassinato de Stuart, pela palavra do ex-agente da repressão (Cláudio Antônio Guerra), então operador delegado do maligno dops (Departamento de Ordem Política e Social).
Noves fora o tear do destino, o fato de Hidegard Angel (irmã de Stuart, filha de Zuzu) estar hoje presente ao julgamento do recebimento da denúncia do apologista de torturadores e defensor da ditadura (Jair Messias Bolsonaro) se me parece um bálsamo de vida na tragédia de uma mãe e de seu filho.
Longe de mim qualquer tentação punitivista, espero, todavia, que Hildegard tenha alguns momentos de satisfação no julgamento que demarca o recebimento da denúncia daquele que sempre defendeu o regime de exceção que matou dois Angel.
Zuzu presente, Stuart presente – aproveite o dia Hildegard!
Tristes e imemoriais trópicos.
Saudade Pai!
João dos Santos Gomes Filho, advogado


