A primavera dos ignorantes
"Sou e tenho sido um privilegiado da vida que busca redenção dos próprios equívocos juvenis"
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de junho de 2026
"Sou e tenho sido um privilegiado da vida que busca redenção dos próprios equívocos juvenis"
Joao Gomes Filho 
Vi um vídeo, dia desses, do apresentador Luciano Huck, onde este senhor professou um cabedal de desinformação sobre o programa social do governo petista, bolsa família. Dentre as muitas profanações que Luciano vomitou no vídeo, sobreleva-se a seguinte pérola: ‘o estado não criou ferramentas ao bolsista para que ele saísse desta situação’.
Vamos por partes.
A tal ‘situação’ a que Luciano se refere é, justamente a de bolsista e, como sua fala era crítica ao programa do Governo, sugeriu o apedeuta global (com o perdão do pleonasmo) que aquele que recebe uma ajuda de custo de $600 teria que ser incentivado a dela não mais precisar.
É petulância demais ou conhecimento de menos? Precisa aquele que está sendo socorrido com o mínimo para sobrevier ser ‘incentivado’ a melhorar a ponto de não mais precisar do benefício?
Ficou a sugestão implícita (para falar o mínimo, já que eu percebi explicitamente isso) que os beneficiários do programa evitam o mercado de trabalho para seguirem sendo beneficiadas.
Olha a antinomia do raciocínio (?): segundo Huck, o beneficiário de um valor irrisório e mínimo, que nem de longe garante condições minimamente aceitáveis de uma vida digna, precisaria ser incentivado a buscar, justamente, melhorar de vida...
Huck, sabe lá você o que seria melhorar de vida para um bolsista familiar? Seria ganhar mais para (i) comer melhor, (ii) viver dignamente, (iii) ter perspectivas de dignidades que a própria fala do duble de apresentador e humorista errático desmerece.
Para piorar o impacto da arrogância neoliberal destilada pelo apresentador global, ainda ontem a ONU divulgou um dado onde destaca as condições relacionadas à educação para aderir ao programa Bolsa Família, classificando-as essenciais para que o Brasil atingisse o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da história, pontuando o nível ‘muito alto’, conforme a PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Na escala de 0 a 1, o Brasil saiu do 0.744 pontos (registrados em 2012) para 0.805, o maior número registrado no período.
Dos três indicadores de IDH (saúde + educação + renda), foi justamente a educação quem puxou a elevação de nossa pontuação. Isso pode parecer nada para o apresentador global (um estranho no ninho dos necessitados), mas para muita gente que vive miseravelmente no Brasil, é muito.
Todavia, ao reconhecer a importância do Programa e relacioná-lo diretamente ao crescimento do IDH, a PNAD demonstrou o extraordinário acerto político de sua implementação social, notadamente porque uma das condições para o recebimento do Bolsa Família é a mantença frequêncial dos filhos em escola e essa exigência, não por acaso, está a refletir décadas após a efetivação do programa governamental.
Há, todavia, um universo argumentativo a ser esgrimido sobre a visão limitante da vida e das vicissitudes de bem viver de Luciano Huck, mas vou esgrimir o óbvio ululante: quem propagandeia jogo eletrônico de azar (como, por exemplo, o próprio), não tem legitimidade, nem lugar de fala, para argumentar sobre a miséria alheia, notadamente se a fala ignorante está em conflito com política pública que vem minorando abuso civilizatório e tem o reconhecimento da ONU.
Ainda que o lugar de fala brasileiro venha sendo capturado, dia após dia, por ignóbeis de rede social, que opinam sobre quase tudo e o fazem sem qualquer conhecimento teórico ou metafísico, não será o cansaço a nos vencer. Rebater a ignorância alheia é dever de quem conjuga mais de dois neurônios...
Circunstancialmente pareceu importante a huck atacar o mais célebre dos muitos programas sociais do governo Lula e, na medida em que atacar Lula acalenta o coração dos sem coração, buscou likes e visibilidade – ainda que estas circunstâncias, isoladas ou cumuladas, diminuam nosso alcance cidadão.
Fez sua crítica rasa e foi ao cinema, como se o mundo girasse entorno de seu umbigo caricato, onde o cordão rompido não é senão um entrave desligado, uma amarra vencida, na medida em quem a empatia não fluiu e nem mora nos robôs da elite economia...
Não há rancor em minha fala. Sou e tenho sido um privilegiado da vida que busca redenção dos próprios equívocos juvenis. Não há, sobre o tema, quem dele falar contra possa.
Bolsa família é um programa social que atende uma diretriz que acompanha o Partido dos Trabalhadores e, principalmente, o Presidente Lula, desde sempre: acabar com a miséria.
Sei que a pretensão é gigantesca, mormente em se tratando o Brasil de nossos dias de um amontoado de zumbi de rede social que vive da, e pela miserabilidade de suas próprias posturas.
Exemplos há vários: em plena campanha pela vida das mulheres que vem sendo assassinadas pelo machismo estrutural de nossa sociedade, dia desses, um outro obscuro ator global protagonizou uma entrevista em programa de entretenimento, onde mentiu o dado estatístico de que no Brasil as mulheres matam mais homens do que são mortas por eles, fazendo uso de um ‘data derrière’ que, por si só, contraria a pauta e desencaminha o entendimento óbvio de que os homens precisam parar de matar as mulheres.
Mas não irei falar disso. Já tratei de muita ignorância por hoje. Espero ter ajudado a esclarecer, minimamente, que não se deve desprezar a fome e suas consequências brutais.
Tristes trópicos. Saudade Pai!
Joao Gomes Filho - Advogado


