Para falar da presença negra em Londrina é preciso reportar ao início de sua colonização. Era 1930, o então patrimônio Três Bocas não passava de um acampamento de pioneiros, aberto na clareira circundada pela imponente mata de terra roxa, onde sobressaíam árvores imensas, perobas, paus-d'alho, ipês, palmitos em abundância, padrões de terra fértil. Algumas casas de madeira batizando ruas recentemente abertas.
Em 1932 já chegavam grandes grupos de desbravadores alemães, italianos, japoneses, brasileiros, compradores de terras ou simples colonos que aqui vieram construir uma nova vida. Foi assim, em nome da Companhia de Terras Norte do Paraná - possuidora da maior parte das terras - e sob o comando de Arthur Hugh Miller Thomas, que deu início à colonização do desconhecido sertão dos rios Tibagi e Ivaí e o primeiro passo para a fundação do que viria ser a cidade de Londrina. Então, em 3 de dezembro de 1934 foi criado o Município de Londrina, pelo decreto estadual nº 2.519 e, em 10 de dezembro de 1934, o dr. Joaquim Vicente de Castro foi empossado como primeiro prefeito da cidade.
Em 1935, a presença negra é marcada com a chegada de um jovem negro, Cipriano Manoel, funcionário da Companhia e oficialmente motorista particular de Arthur Thomas. Em pouco tempo, Cipriano passa ser importante liderança comunitária, organizando um grupo de pessoas que se reunia com nome informal de Clube Quadrado. Na década de 40, Cipriano funda a Associação Princesa Isabel, como primeira organização genuinamente negra, com a finalidade de fortalecer a união do grupo e promover o desenvolvimento de uma nova classe social emergente.
Com o argumento que o Brasil vivia uma democracia racial, o então prefeito Antonio Fernandes Sobrinho incentiva Manoel Cipriano transformar a associação de negros em uma organização de operários. Cipriano altera o estatuto da entidade para Associação Recreativa Operária de Londrina - AROL - e, com a mudança de denominação, recebe da prefeitura a doação um grande lote de terras na Vila Nova e, para construção da sede da entidade, é doado o barracão do Corpo de Bombeiros de Londrina. Funcionando como clube social, a associação realiza grandes bailes e forma a primeira escola de samba de Londrina.
Em seu apogeu, a AROL representou um importante espaço cultural e social da cidade e, em particular, principal ponto de encontro de negros emergentes da época. Porém, com a crise política vivenciada pelo Brasil na década de 60, assim como outras organizações de trabalhadores, a AROL começa a declinar sucumbindo definitivamente após a morte de Manoel Cipriano.
Embora a história oficial não conte, de lá para cá a caminhada do povo negro em nossa cidade é marcada com muita garra. Já no início da década de 80, a comunidade negra volta atuar de forma organizada com a criação do Movimento de União e Consciência Negra de Londrina e outras entidades como o Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos da UEL, o MECAB - Movimento de Estudos da Cultura Afro- Brasileira, o Movimento para o Progresso do Povo Negro, o espaço Zumbi Bar, bem como diversos grupos culturais. Mais recentemente é criada a AABRA - Associação Afro-Brasileira de Londrina e o Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina.
Com certeza, a história de nossa gente teve seus momentos difíceis, porém é uma história de perseverança e superação. Com o evento ''Presença Negra'' queremos contar um pouco de tudo isso e celebrar o sucesso da caminhada de um povo que a cada dia vem vencendo a barreira do preconceito. Para materializar esse momento histórico, escolhemos homenagear todos os negros e negras de nossa cidade na pessoa de uma grande mulher, Maria José Barbosa. Hoje, Secretária Municipal da Mulher, Mazé, como gosta de ser chamada, é uma de nossas negras de luta, guerreira de sensibilidade feminina construída no próprio campo de batalha. Parabéns Mazé, sua vitória representa o sucesso de nossa gente.
IDALTO JOSÉ DE ALMEIDA é secretário do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina

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