A pregação do vício servindo à virtude
O Brasil já é um cassino oficial, porque o Governo banca uma infinidade de jogos e arrecada com isso soma fabulosa. No verso dos volantes de apostas estão escritos os porcentuais com rubricas de cunho social, e agora o leque de opções de jogo pode se ampliar porque a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal acaba de aprovar projeto que restabelece o funcionamento dos bingos e das máquinas caça-níqueis. A proposta agora vai para o plenário da Casa e depois para o Senado.
O argumento dos defensores desses jogos é que 17% serão repassados para as causas da saúde (14%), da cultura, do esporte e da segurança, estas com 1% cada, e que haverá a geração de um grande número de empregos e boa receita tributária. Cidades com até 500 mil habitantes (caso de Londrina) terão direito a um ponto de bingo a cada 100 mil, e nas maiores a proporção será de 150 mil habitantes por unidade.
Pelo que se deduz dos propósitos governamentais, a saúde pública será a mais avançada do mundo, porque também está sendo urdida a criação de um imposto substituto da extinta CPMF. O relator do projeto dos bingos argumenta com os benefícios, citando a recuperação de 320 mil postos de trabalho nos bingos que foram fechados, mais as máquinas caça-níqueis. Ele complementa mencionando uma arrecadação substancial de impostos normais, afora os porcentuais anunciados das apostas. Outro argumento é que a legalização desses jogos diminuiria a contravenção e a corrupção. Isto é verdadeiro e remete para o mesmo axioma de que sem lei também não haveria tipificação de delitos. Por ora fala-se dos benefícios mas certamente haverá também os estragos, como a indução para o vício do jogo e a subtração de mais dinheiro da economia popular, especialmente no caso dos bingos, cujos apostadores são em boa parte aposentados. Não é forçado dizer que reservas para o remédio e para a própria manutenção deles pode cair na malha dos exploradores do bingo.
Os lobbies a favor da reabertura dos bingos e outras modalidades do gênero são fortes, tanto que interessados estavam do lado de fora com cartazes enquanto ocorria a votação na Comissão de Constituição e Justiça. Mas quanto à garantia dos repasses no porcentual anunciado, parlamentares já manifestam desconfianças. Entre eles o deputado petista José Eduardo Cardozo, afirmando que o que está dito é uma coisa, mas que o porcentual de transferência é de apenas 5,1%. Recorda-se que também a CPMF tinha a rubrica de destinar-se inteiramente à saúde, mas não era isso que acontecia.
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