''Sempre que possível, onde estejas e para onde fores, deixa algum sinal de paz e de luz para aqueles irmãos que estão vindo na retaguarda''. Esta é apenas uma entre as milhares de preciosas pérolas deixadas por Chico Xavier, este ser iluminado que acaba de concluir mais uma etapa de sua missão evangelizadora e transcende para esferas mais altas.

Francisco de Paula Cândido Xavier foi uma santa criatura que dedicou todos os seus anos de ministério à semeadura de palavras acalentadoras para pobres e angustiados. Ele ensinou: ''Deus nos coloca, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta''.

Homem de vida simples, Chico Xavier deixou escritos, nas línguas mais conhecidas do mundo, 337 livros de sábios ensinamentos e de sublimes narrativas, nos seus 54 anos de doação à humanidade. E não guardou para si um tostão sequer, mas entregou toda a receita dessa obra para instituições beneficentes. Não foi este, porém, o seu maior legado e sim a sabedoria que transmitiu, pela voz dos seus mestres dos planos superiores e pelas suas próprias palavras.

''Berço e túmulo são o simples marco de uma condição para outra''. ''Todas as nossas figurações mentais, o conjunto de nossas lembranças, as nossas alegrias íntimas, os nossos ressentimentos, as nossas dores, as nossas aspirações, formam o conjunto do clima em que o nosso desenlace (entenda-se a morte física) ocorrerá''. Palavras do mestre Emmanuel, pela psicografia de Chico.

Desde quando menino pobre, nascido na localidade de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais, e depois quando se mudou e viveu até o fim da vida em Uberaba, esse homem humilde de família católica e que nunca edificou templos nem teve religião embora, por conta alheia, lhe atribuíram uma, pela característica de sua obra Chico Xavier via em tudo poesia e oração, luz e verdade, beleza e amor, e sobretudo a presença de Deus. Tratava as pessoas e todos os seres e coisas como irmãos. Porque compreendia a alma do grande todo.

Sua passagem terrena mostrou a possibilidade do intercâmbio de idéias entre os dois mundos. Seu primeiro livro, ''Parnaso do Além-Túmulo'', reuniu mais de 200 poemas ditados por dezenas de poetas mortos (mortos no sentido da fisicalidade), entre eles Castro Alves, Olavo Bilac, Alphonsus Guimarães, Artur Azevedo, Augusto dos Anjos, Humberto de Campos. Houve reações, à época, mas intelectuais consagrados como figura nos registros confirmaram os estilos de cada poeta. Todos descartaram a possibilidade de fraude. A viúva daquele último poeta chegou a requerer na Justiça o seu quinhão em direitos autorais. E o jornal ''O Estado de S.Paulo'', cético e inflexível em questões do gênero, escreveu que se as poesias não eram de Humberto de Campos, Chico Xavier merecia uma cadeira na Academia Brasileira de Letras...

Muitas de suas mensagens foram-lhe ditadas por João, o evangelista, por Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, Sócrates, Platão. Afinal, eles não estão distantes... ''Nunca nos procure para resolver seus problemas particulares, e cuide de seu corpo'' avisava-lhe Emmanuel, como a dizer-lhe que não há salvadores, porque como está escrito no início deste texto corre por nossa conta aquilo que colocarmos nas páginas de cada dia do livro do tempo, que Deus nos dispôs. Nossos amigos ''do além'' incluídos Jesus e todos os demais mestres que estão sempre prontos a nos auxiliar, por si sós não nos salvarão. Até porque já somos todos salvos.

Mais palavras de Chico: ''Se pudéssemos colocar uma legenda na frente de cada conjunto residencial, de cada aldeia, de cada cidade, de cada grande metrópole do progresso humano; se pudéssemos e tivéssemos bastante autoridade para isso, escolheríamos aquela frase de Jesus Cristo quando nos disse: Amai-vos uns aos outros''.

As psicografias de Chico estão marcadas por temas que tratam da ciência divina, com realce para palavras do Evangelho, infelizmente repetidas, pelos fiéis das religiões convencionais, em forma de prece e clamor, quando deveriam ser lidas e absorvidas como ensinamento. Toda a vasta obra de Chico Xavier compõe-se de narrativas de grande beleza espiritual.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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