A praça é do povo... - Josilena Maria Zanello Gonçalves
Josilena Maria Zanello Gonçalves
O Centro Cívico de Curitiba é parte da história urbana da cidade. Foi proposto inicialmente em 1943, no Plano de Urbanização coordenado pelo urbanista francês Alfred Agache. Conforme a proposta de Agache, seria construído um conjunto de edifícios públicos ao final da Avenida Cândido Abreu, no mesmo espaço onde está localizado o Centro Cívico atual. Para o urbanista francês, seria uma espécie de sala de visitas da cidade, com edifícios dispostos em torno de uma grande praça onde se realizariam paradas e festividades cívicas.
Em 1950, no governo de Bento Munhoz da Rocha Neto a idéia da construção de um Centro Cívico foi retomada. O conjunto do Centro Cívico seria o marco principal das festividades do Centenário de Emancipação Política do Paraná, comemorado em dezembro de 1953. O projeto foi desenvolvido de 1951 em diante, pela equipe coordenada pelo arquiteto curitibano David Xavier de Azambuja, radicado no Rio de Janeiro. Desta equipe participaram os arquitetos Olavo Redig de Campos, Flávio Amílcar Regis do Nascimento e Sérgio Rodrigues. Todos profissionais atuantes no Rio de Janeiro, palco de debates seminais da arquitetura moderna brasileira.
A proposta da equipe de arquitetos para o Centro Cívico sintetiza o que há de mais atual no debate arquitetônico e urbanístico da época. O conjunto do Centro Cívico foi concebido como uma grande praça peatonal, em torno da qual estariam localizados os edifícios dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O projeto apresentado materializa os conceitos em discussão nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam) no início dos anos 50, nos quais, o debate girava em torno do resgate da dimensão humana da cidade através da idéia da construção dos chamados Cuore (corações da cidade). O Cuore tratava-se de espaço público patrocinado pelo poder estatal, que congregaria edifícios administrativos, culturais e comerciais, e era visto como espaço de livre manifestação popular. Deste debate participaram arquitetos fundadores do movimento moderno tais como Le Corbusier, Gropius, Sert e Giedion, entre outros. O Centro Cívico seria uma espécie de Cuore da cidade.
Na década de 50, esta idéia será aplicada no Brasil em projeto desenvolvido por Sert para a Cidade dos Motores em Petrópolis, que não foi implantado, e no projeto de urbanização desenvolvido pelo arquiteto carioca Reidy para a urbanização de área remanescente do desmonte do Morro do Santo Antônio no Rio de Janeiro, que também não foi construído. Na mesma época e com a aplicação de conceitos semelhantes, embora com escala reduzida, foi projetado no Centro Cívico de Curitiba, com a utilização do que havia de mais atual em termos de conceitos arquitetônicos e urbanísticos.
De todos os projetos teóricos de materialização da idéia de Cuore surgidos na época, o Centro Cívico de Curitiba foi o primeiro a ser construído. Seu projeto foi elogiado por Lúcio Costa quando em visita ao escritório dos arquitetos no Rio de Janeiro. Assim, apesar de não ter se concretizado como foi concebido inicialmente, o Centro Cívico de Curitiba tem importância incontestável na história da arquitetura moderna brasileira, pois será o primeiro momento em que se iniciará a aplicação de idéias surgidas no seio dos Ciam em torno do resgate da dimensão humana das cidades no Brasil. É considerado um precursor da Praça dos Três Poderes de Brasília, a ser construída na década seguinte.
A praça central de uso exclusivo de pedestres, é essencial para a manutenção da integridade conceitual do projeto. A proposta de remodelação de espaço central do Centro Cívico apresentada pelo governo estadual, com a construção de canchas esportivas cercadas com grades, que seriam utilizadas durante o dia como área de estacionamento e nos finais de semana e à noite como área de lazer, causa um dano irreparável ao projeto do espaço e dos edifícios.
A praça foi concebida como espaço de manifestações populares e cívicas, e, os edifícios foram projetados para não serem cercados, foram propostos considerando este espaço aberto e de livre acesso para a população. A rampa proposta para o edifício do plenário da Assembléia Legislativa visava o acesso direto às galerias pela população ao que deveria ser a casa do povo. Infelizmente o conjunto da Assembléia foi o primeiro a receber gradis.
Os novos usos propostos para o espaço são inadequados para uma praça cívica, descaracterizando o projeto inicial. A proposta do governo estadual altera de forma irreparável um conjunto arquitetônico de grande importância não apenas para a história da arquitetura paranaense, mas para a história da arquitetura brasileira.
A proposta do governo estadual é autoritária na medida em que priva a população curitibana e paranaense de um espaço já institucionalizado como de livre manifestação.





