Depois da reunião, em Montevidéu, dos presidentes dos países que integram o Mercosul, quando foi assinada uma declaração conjunta de apoio à Argentina, o presidente Fernando Henrique Cardoso mudou o tom de seu discurso com relação à crise no país vizinho. Não mais o ufanismo das primeiras horas, quando comparou que enquanto a crise chegava ao ponto de culminância na Argentina, o Brasil anunciava o aumento do salário mínimo e a redução do preço dos combustíveis. Argumentos de nenhuma relevância ante a gravidade do momento, ademais tendo partido do presidente do mais importante país da América do Sul.
Agora o presidente FHC assume posição de estadista, ao anunciar o propósito de coordenar um movimento de líderes mundiais em favor da reconstrução argentina. Esta é a postura que se esperava de um homem que se tem descuidado do país que governa desfruta de prestígio internacional, pelo seu nível intelectual, por comunicar-se através de vários idiomas, pelas amizades que conquistou quando exilado e depois como diplomata, e pelo conteúdo de sua retórica política como presidente. Quanto a esse aspecto o Brasil tem sido bem representado no exterior. Agora é um momento de esquecer a histórica arrogância dos argentinos com relação aos brasileiros e não apenas no futebol e de ajudar o país co-irmão. Porque, o que abala qualquer nação do mundo, e muito mais um parceiro próximo e integrante do Mercosul, tem reflexos sobre o Brasil, negativos ou positivos.
FHC agora afirma que ''a Argentina é muito importante para nós'', e que ele vai interferir diretamente junto a organismos internacionais como o G-7, que é o grupo dos mais ricos, e o FMI á em busca de apoio financeiro para a nação vizinha. Esta posição é importante, não apenas em função dos negócios bilaterais que em tempo de crise afetam os dois países, com grandes prejuízos para ambos mas pela sobrevivência do Mercosul, que ainda não se consolidou; por questão de solidariedade regional; e porque, sozinho, o Brasil terá dificuldades para fazer valer seus pontos de vista no âmbito mundial. A frase cunhada de que uma nação não tem amigos e sim interesses, soa perversa para os padrões brasileiros e não é consonante com os sentimentos do povo, por natureza pacífico e solidário.
Mas se ficamos apenas no interesse, já podemos verificar a clara retração nos negócios entre os dois países, nos últimos meses, em face da instabilidade político-econômica da Argentina e que resultou na renúncia do presidente Fernando De la Rúa e do arrogante e aparentemente todo-poderoso ministro da Economia, Domingo Cavallo. Os números mostram que houve queda de 41,2% nas exportações brasileiras para aquele país e de 21,7% nas vendas argentinas para o Brasil.
É fundamental que os dois países estejam sintonizados, em tempo de tranquilidade e especialmente em tempo de crise, porque está em jogo não apenas a paz social dos povos sul-americanos, historicamente tão sofridos, mas também a democracia. Uma ruptura no regime governamental de qualquer país integrante do Mercosul o afastará do tratado, podendo significar a falência desse mercado comum, afora os perigos da influência nefasta que regimes autoritários podem disseminar neste canto do mundo, outrora tão marcado por ditaduras.
Há quem afirme que é o Brasil que vai salvar a Argentina da presente situação, e se tal acontecer por via direta ou indireta melhor para ambos. O que o presidente Fernando Henrique cultivou nas suas viagens e experimentos internacionais deve ser aproveitado agora, com a sua interferência junto aos países poderosos do mundo para tirar a Argentina da crise, por ora não institucional mas econômica. Este é o papel do estadista, e é o que o Brasil deve assumir, como nação líder da América do Sul.

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