As pesquisas de opinião - que, cada vez mais, deslocam a vida, da realidade para planilhas - parecem estar provando: ‘‘os políticos’’ são os personagens mais desacreditados da República .
Obviamente, trata-se da opinião colhida em pesquisa não-qualitativa. Não obstante, a mídia imagina válido generalizar. Leviandade. Quem são ‘‘os políticos’’? - pergunte ao cidadão comum, transeunte, apressado, que passa calçada. Se citar o nome de algum, dificilmente ele lembrará do nome completo, tampouco se o político citado exerce mandato eletivo ou a qual partido pertence. As mais das vezes, encalha naquele que mais tem aparecido na mídia, o que foi acusado de vender o voto, o que ‘‘alugou’’ o cargo para o suplente, ou aquele de quem descobriram um rombo nas contas públicas quando era governador etc.
Se se fizer uma lista dos agentes negativos desse processo, enfocados pela imprensa, talvez não somassem trinta pessoas. Vá la que fossem cinquenta - representam cerca de 10% dos políticos que exercem cargo de parlamentar no Congresso Nacional. Seria um percentual muitíssimo menor se comparado ao chamado cenário político nacional, com todos os homens públicos do Poder Executivo e do Poder Legislativo, em todas as esferas de governo (federal, estadual e municipal), mais os líderes partidários atualmente sem mandato e sem ocupar cargo em comissão. Pessoalmente, duvido que haja elementos suficientes para se concluir que política é safadeza ou que político é safado, assim, generalizadamente.
Fenômeno da massificação, claro. Quem conhece todos os prefeitos, vereadores, líderes políticos dos oito e mil e poucos municípios do Brasil? Até aqui não apareceu ninguém com essa capacidade. Apesar disso, quando um jornal põe na manchete que ‘‘Brasileiro não acredita nos políticos’’, dá a - primeira - impressão de que política é uma instituição em situação falimentar, e que nenhum político presta. Depois, lendo a matéria correspondente, o leitor vai verificar que são os brasileiros de uma determinada universidade, ou de uma determinada capital - aliás, são os brasileiros ouvidos na pesquisa. (Por exemplo, numa cidade como Curitiba, com aproximadamente 1 milhão e meio de habitantes, são ouvidos duzentos estudantes universitários da Federal. Se forem do foco petista, certamente a opinião será oposicionista - o que não torna oposicionistas todos os universitários curitibanos). Todavia, costuma prevalecer o equívoco.
Agora, é interessante observar quando a imprensa explora certas contradições, cometidas por certos políticos. Leonel Brizola e Lula se aproximaram, trocaram juras de fidelidade para costurar a aliança (inclusive, com um Brizola humilde, aceitando ‘‘coadjuvar’’ como vice), ou quando Requião e Quércia se reconciliaram. Aí, realmente não dá para segurar. Há menos de cinco anos esses homens trocavam insultos e ameaças, dissecavam o cadáver do inimigo em público, ironizavam o ideário do partido adversário, feriam-se de morte, por supostos princípios de honradez. Farpas ora levianas, ora fundamentadas. Gastaram tanta munição que deu tempo ao cidadão, eleitor, para sedimentar reflexão crítica sobre fatos e pessoas (‘‘disk-Quércia’’, ‘‘sapo barbudo’’). De repente, sorrisos, beijos, abraços, mesuras. Quem diria? Pois se houver um único brasileiro que ache sinceridade nesses namoros, certamente teria vergonha de contar.
Nesse caso, o fenômeno da massificação promove clima para generalização, afrouxando os freios morais da política no País, mas também pode acabar penalizando, severa e especificamente, os protagonistas da contradição. Na generalização, permitiu um certo ar de normalidade, mais de condescendência do que de reprovação, algo do tipo ‘‘política é isso aí, ó’’. No varejo, tudo indica que a imagem dos recém-‘‘enamorados’’, saiu arranhada. Porque, felizmente, mesmo que a situação geral apresente sinais de deterioração, a absoluta falta de vergonha-na-cara ainda escandaliza. No momento, a melhor pergunta para uma boa pesquisa de opinião é a seguinte: pode-se confiar num político cuja ação lhe contesta o próprio discurso?
Evidenciou-se a negociação de conveniência, do acerto para disputar o próximo pleito. Interessam os fins - o poder -, no pior estilo denunciado por Nicolau Maquiavel, desde 1532.
Mohandas Gandhi, desde 1920, complementarmente às lições de ‘‘O Príncipe’’, preferia afirmar que ‘‘meios moldam os fins’’. Ou seja, se os políticos fazem qualquer porcaria para alcançar seus objetivos, é justamente essa porcaria que eles farão quando chegarem lá. Especificamente, sem generalização.

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