Quando li a entrevista "Sistema Educacional - 'Os alunos são do século 21 e o modelo é do século 19'" com o educador português José Pacheco (Entrevista, 13/7), fiquei surpreso ao saber que o tema "escola aberta", nos moldes da Escola da Ponte, localizada na cidade do Porto, em Portugal, esteve em debate em Astorga, aqui no Norte do Paraná. O preceptor foi ninguém menos que o próprio fundador da escola e autor do método libertário de ensino que se tornou referência em terras lusitanas. Não era sem tempo! Alguém tinha que dar a largada para um novo conceito em educação. O que não podemos é continuar insistindo num modelo de escola arcaico como a que predomina no Brasil, onde alunos fazem de conta que aprendem e professores fazem de conta que ensinam - ou, em ambos os casos - nem isso.
Certamente, essa é uma preocupação constante de muitos pais desacorçoados com os parcos avanços de seus filhos, especialmente, no ensino fundamental, mas que não sabem a quem, onde e como recorrer ou opinar. Frequentemente, culpam seus próprios rebentos pelo fracasso, ou a si mesmos, perguntando "onde foi que errei"? Se pudessem contar com um educador da estirpe de José Pacheco que vê a educação além da ótica dos modelos seculares, certamente, perceberiam que a solução está na "liberdade para aprender" (referência ao título do livro de Carl Rogers, grande pedagogo e psicólogo americano que propôs uma abordagem revolucionária na educação nos anos 80, conhecido como "Abordagem centrada no aluno"). Pacheco, na entrevista, afirmou que "o modelo de escola que temos hoje é do século 19, os professores são do século 20 e os alunos do século 21". Como esperar um resultado satisfatório nesse conflito de gerações?
É preciso maturidade e ampla visão das capacidades humanas para compreender que liberdade para aprender não é um "laissez faire, laissez aller, laisser passer", usando as expressões francesas ou, num bom português, deixai fazer, deixai ir, deixai passar. Essa interpretação equivocada é que gera o medo de se perder o controle e a autoridade sobre os alunos, com prejuízos à educação. Nesse contexto, liberdade significa reconhecer a potencialidade dos adolescentes para a autorregulação, apostar no protagonismo juvenil, incentivar a busca pelo conhecimento e valorizar as competências em vez da enfatizar as críticas.
Para a maioria das pessoas, mesmo aquelas que acham que o sistema atual é inadequado, parece insano apostar que se dermos liberdade aos adolescentes eles serão capazes de agir com responsabilidade rumo ao autoaprimoramento, mas é isso que a Escola da Ponte demonstra que é possível por meio dos resultados obtidos desde os anos 70 em Portugal. Nesse modelo de escola não há uma estrutura hierárquica rígida como direção, orientação pedagógica, equipe técnica, nem avaliações e notas. Tudo é gerido pelos próprios alunos, seus pais e a comunidade, com auxílio dos professores. É a consumação plena da tão propalada inclusão das famílias, não da forma coercitiva na qual as famílias apenas obedecem a um calendário pré-fixado pelo sistema. Uma escola alternativa estará aberta e à disposição dos alunos e pais integralmente. Não há professores de determinadas matérias nem séries, mas sim "facilitadores" do aprendizado e todos são responsáveis por todos. Aliás, não há nem mesmo a divisão por séries e faixas etárias e os alunos, sempre em grupos, decidem o que vão estudar e da maneira como vão fazer isso. De forma prazerosa o aprendizado acontece, naturalmente, sem estresse, extraindo de cada um exatamente a sua melhor produção, pois ela brota da sua motivação interna. É a constatação de que a sabedoria intrínseca a todo ser humano buscará sempre a autoatualização, desde que as condições sejam adequadas. Seja bem vindo professor José Pacheco!

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