A ponte dos Remédios é o Brasil
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de junho de 1997
Fernando José Dias da Silva 
A coitada é aquela que está cai, não cai. É aquela que está com a estrutura carcomida, estuporada pela oxidação. É aquela que foi construída há 30 anos e nunca teve manutenção. A ponte dos Remédios é aquela que está acabando com a paciência, de frade capuchinho do paulistano.
A ponte dos Remédios é o Brasil. E está partida ao meio. Não está mais exercendo a sua função primeira de levar o cidadão, e os seus veículos maravilhosos, de um lado para outro do rio Tietê.
Foi um susto. Ninguém imaginava. As coisas sempre acontecem assim: FOI PRECISO UM QUALQUER PASSAR POR BAIXO DA PONTE PARA DESCOBRIR QUE ELA ESTAVA CAINDO, QUE ELA ESTAVA FISSURADA, COM SEUS CABOS DE AçO, como os precatórios, de fora. Todos arreganhados. Ponte caindo é coisa para especialistas, para entendidos.
Aqueles que chegam olham, fazem caras de pensativo e depois mexem a cabeça dizendo que não tem jeito - é preciso derrubar a bruta. São os pessimistas. Mas existem vários outros tipos de especialistas, aqueles que têm idéias mirabolantes para recuperar a ponte. Os otimistas. E ainda aparecem os fatalistas que dizem que as coisas são assim mesmo.
De qualquer forma, dizem os especialistas, tudo está sendo feito com amor, tudo está sendo feito com o pensamento voltado para aqueles que estão lá embaixo, que são vistos do helicóptero como formiguinhas dentro daqueles ônibus engraçadinhos, que ficam tão bonitinhos naquelas filas, uns atrás dos outros.
Que a ponte Brasil está precisando de uma geral não há dúvida. O problema é que também ela está entregue a especialistas que, é claro, só pensam na felicidade do próximo, que tem o voto para eleger.
Então se imagina que um novo Congresso Revisor da Constituição possa resolver o problemas, que a saída também seja diminuir o tempo da propaganda eleitoral, que a luz no fim do túnel esteja ao instituto da reeleição sem sair do cargo para fazer campanha. Além do velho e conhecido discurso. Muito discurso, segundo eles, pode resolver o problema da ponte Brasil, ou seja que nome se queira dar para isso que está aí.
O resto é problema de comunicação. Existe algum descontentamento da população, pura e simplesmente, por problemas na comunicação. Ninguém está preocupado porque se reduziram verbas para aplicação na área social (de 95 para 96 a redução foi de 12,55% em educação e saneamento, 51,86% na saúde e 42,48% na previdência).
Uma boa campanha publicitária mostrando a excelência do trabalho dos especialistas resolve esse problema.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


