A politização espírita (Luiz Geraldo Mazza)
Luiz Geraldo MazzaA politização espírita
Certa vez, talvez a primeira, tive a incumbência nada fácil de animar greve de lixeiros, então ainda não chamados de garis e muito menos alvo dessa moda das terceirizações, mas servidores municipais de Curitiba. Como eles não tinham a menor noção do processo, ensinei-os, à maneira de Isaac Karabichewski, a cantar em três vozes o estribilho Estamos com fome. Estamos com fome.
Nesse e em outros episódios, quando me engajava em qualquer agito popular, fosse estudantil (eu já estava formado em Direito há mais de cinco anos e não abandonava o ritual das passeatas e comícios por nada até porque aquilo me levava à mais absoluta euforia na crença juvenil, voluntarista, de que estávamos mudando o mundo e este de redondo já estava até ficando chato) ou de movimentos populares, chegávamos à catarse. Ao gritar estamos com fome, um apelo para sensibilizar o prefeito com seu orçamento limitado, assumíamos, como nas sessões espíritas, o papel do explorado, hoje excluído. Nós éramos o médium, vetores da história e da revolução, que incorporávamos o sofrer das massas. Não é possível lembrar disso sem emoção e sem constrangimento.
Tudo continua assim: hoje em Brasília, como aconteceu antes com sem terras, teremos incorporações de sindicalistas e políticos fazendo o papel de desempregados e também de esfomeados. O agito é bom para chamar a atenção, para sensibilizar, para tirar o poder público (embora esteja imobilizado e sem condições de atender a velha pretensão do Estado-Albergue que provê e prevê) da inércia. Na prática, porém, serve apenas para fins de politização de cunho eleitoral de uma oposição que não tem discurso e nem proposta e tenta fazer emergir o arcaísmo de Lula e Brizola. Se isso é esquerda, estamos perdidos.
A incitação aberta aos saques pelo MST, CUT e congêneres a supermercados está aí na cara de todos. Pedem para que os desempregados fiquem nos pátios dos empórios como se olhar o entra e sai suprisse estômagos ou creditasse pontos à oposição. Começa como alegoria, o que se enquadra na carnavália brasileira, o que pode terminar como baderna da pesada. Para que o decor fosse real seria indispensável convocar figuras de retirantes, do mural Vidas Secas de Graciliano Ramos, famélicos mesmo.
Parece que as pessoas não aprendem com a história. Desempregados e gente com fome não constituem maioria, a despeito do imaginário da sinistrose. Mesmo os pobres, porque submetidos à sedução do consumo, não se acreditam tal e se imaginam outros e por isso votaram em Collor e nunca em Lula e fizeram o mesmo com Fernando Henrique em relação ao bi-derrotado que se não melhorar as alianças e o conteúdo caminha para o tri e o tetra. AXIOMA
Toni Ramos sai do papel de garoto propaganda do Banestado e entra na novela Torre de Babel. Uma sucessão poética ou efabulação profética?
BIZARRICE A ilustrada da Folha de S.Paulo adiantou ontem o fim da novela Por Amor e isso me fez lembrar uma perfídia que aprontamos no Estreito, em Florianópolis, numa fila de cinema que se formava para ver em 1954 o premiado O Cangaceiro, de Lima Barreto. Era uma excursão de estudantes de Direito da Federal e nós, diante daquelas filas imensas, entoamos o refrão O mocinho morre no fim. O mocinho morre no fim. O povão queria nos agredir, mas a ponte Hercílio Luz, que estava perto, foi a nossa salvação.
METÁFORA Cai número de reclamações contra planos de saúde, diz o Procon. Pudera: é mais realista e brasileiro e mais honesto esperar a morte.
SPRAY Havia gente no governo comemorando o que consideravam fracasso na missão de Álvaro Dias em Brasília: a direção do PSDB nacional acha melhor ele falar com FHC.- Há quem veja aí, precipitadamente é claro, a síndrome do Marcelo Alencar que foi aconselhado a pular fora e deixar o espaço para César Maia, do PFL, no Rio de Janeiro a fim de equilibrar com o lulo-brizolismo.- O governo de FHC está consciente do desgaste e tenta amarrar o que for possível nas alianças regionais, mesmo em situações agudas como era a do Rio, para contornar dificuldades.- No Paraná tirando a disposição efetiva de Osmar Dias e o espírito de revanche de Luis Carlos Hauly e Hélio Duque, o que também não é ilegítimo em política, há baixa consistência no PSDB que já pensou em acertos oportunistas como o de ligar-se ao PT e a Requião, o que é esquecer inteiramente a condicionante federal do processo.- Mas nem tudo se dá como deseja o situacionismo: o PPB, se aliar-se, vai com chapa própria na disputa proporcional. Mesma postura da aliança de nanicos.- Associados do Concórdia, um dos clubes mais antigos do Brasil, surgido apenas cinco anos depois do que leva o mesmo nome em Petrópolis, de raiz gerânica, estão assustados com uma pretensão da atual diretoria de criar o sócio-empresa que desfigura a sociedade e tira os direitos do sócio-remido, o que afinal é que detém a base patrimonial. Vai acabar no Judiciário.- Aliás não é de subestimar a briga pelo comando de clubes. Deve haver mais do que pura vaidade e desejo de poder para que eleições como a havida no Três Marias acabem na justiça.- Outro pega da pesada vai ser a eleição do Clube Duque de Caxias em que se digladiam o situacionismo com Dirceu Kalkman na cabeça e a oposição com Ary de Souza. A primeira mostra suas inegáveis realizações e a segunda denuncia autoritarismo no comando (400 punições a associados, o que poderia ir ao Livro dos Recordes) atual.- Vem aí mais uma campanha da pesada do Cândido Gomes Chagas da Paraná em Páginas e para manter a tradição contra o lernerismo, via Taniguchi: vai à justiça discutir a concessão privilegiada de uma linha de ônibus circular para o Estação Plaza Show. E já semeou na Câmara Municipal o clima contra essas parcerias e encontrou adeptos, tentando repetir o caso do bonde doado e escondido que não deixou de ser um acinte contra o patrimônio.
FOLCLORE O governador, segundo um dos seus críticos mais mordazes, está de tal forma por fora dos acontecimentos que ao lhe perguntarem sobre a onda de saques colocou em destaque as meninas do Rexona e por tabela o seu secretário Osvaldo Santos, de Esportes, recordista da maratona da Leasing Banestado.
CROMO Maçã no escuro (pensem nisso sensorialmente, odor, forma e cor), título de um conto de Clarice Lispector. Outra faca só lâmina, noção ontológica na poética de João Cabral de Melo Neto.
AFORÍSTICO Mesmo com o esforço de Lerner para perder a eleição, a oposição não cresce nem como rabo de cavalo que ao menos espanta moscas.





