A política regional em nome do Brasil
O caso envolvendo o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, que pode ter privilegiado verbas antienchentes a Pernambuco, Estado onde teria intenções eleitorais, merece uma reflexão mais ampla. A começar pela maneira como parte da própria sociedade se manifesta quando um determinado político de ''seu Estado'' é escolhido para ocupar um cargo no governo federal.
Bezerra, segundo levantamento de gastos divulgado pela Organização Não Governamental Contas Abertas, com base em dados do Tesouro Nacional, teria destinado 90% da verba antienchente para Pernambuco, num total de R$ 25 milhões. A diferença é grande para o segundo Estado que mais recebeu verba, o Paraná (R$ 1,8 milhão). Os desastres naturais causam mortes, traumas, perdas financeiras para a população e para os municípios atingidos. As verbas públicas destinadas à prevenção desses problemas deveriam ser tratadas com mais seriedade. Diante das tristes notícias das enchentes e desabamentos em Minas Gerais, é revoltante saber que os interesses políticos foram colocados acima dos critérios técnicos.
Não há dúvida: a maioria dos nomes que hoje está à frente de ministérios em Brasília, no alto escalão do governo federal, desempenha tanto um papel político quanto técnico. Até aí, nenhuma anormalidade: o exemplo ''caseiro'' mais recente é o da própria ministra-chefe da Casa Civil e senadora licenciada, Gleisi Hoffmann. Embora hoje esteja concentrada na função ''federal'', num órgão ''político e técnico'' como a Casa Civil, ela não negaria que sua atual projeção nacional a coloca como um dos nomes fortes do PT paranaense para a disputa ao governo do Estado em 2014.
Em suma, é óbvio que a indicação para um posto da política nacional ganha peso regional. Mas isto não significa que a atuação do agente público em âmbito nacional tenha que estar voltada exclusivamente ao seu Estado. Nem a sociedade, nem a imprensa, contudo, estão totalmente preparadas para entender isto. Há uma cultura geral que acredita que o nome paranaense lá, por exemplo, deve trazer benefícios para o Estado. Benefícios, contudo, devem ser levados para todo o País, daí a utilização de critérios técnicos, de uma lista de fatores que vão além do domicílio eleitoral.
No governo federal, é claro que há decisões técnicas e políticas a serem tomadas. Mas distribuição de verba antienchente, por exemplo, deve atender a critérios técnicos. E não há motivo para o paranaense ou o pernambucano acharem que deveria ser diferente. O direcionamento político de verbas, também conhecido como clientelismo, deveria estar fora do vocabulário dos dirigentes de um país que alcançou a posição de sexta economia mundial e quer ser tratado como uma nação séria.





