Começou o julgamento de Slobodan Milosevic pelo Tribunal Penal Internacional (TPII). O ex-ditador da Iugoslávia apareceu em jornais televisivos ostentando arrogância e persuasão, e culpando o Ocidente pela injustiça que está sofrendo. ‘‘Não reconheço a legitimidade deste tribunal’’, disse ele. Entretanto, Milosevic jamais reconheceu a legitimidade das 200 mil pessoas que mandou assassinar brutalmente em nome da política infame de ‘‘limpeza étnica’’, seu ideal nacionalista configurado na Grande Sérvia, que na prática trucidou croatas, bósnios, muçulmanos e kosovares de origem albanesa.
Mas Milosevic não será julgado sumariamente, conforme gostava de fazer. Seus crimes contra a humanidade, que a procuradora-chefe Carla Del Ponte, da Suíça, nominou de ‘‘selvageria quase medieval’’ e atos de ‘‘calculada crueldade’’, serão documentados e esmiuçados num longo processo que deve levar dois anos, durante os quais o acusado terá amplo direito de defesa baseado em leis internacionais, tratados e acordos mundiais. Essas criações jurídicas civilizadas do Ocidente que o ex-ditador odeia tanto, note-se, contrastam flagrantemente com os tribunais de exceção revolucionários, essas pantomimas sinistras onde prevalece o arbítrio da tirania e não o império de lei.
De todo modo, a menção de Carla Del Ponte à ‘‘selvageria quase medieval’’, faz pensar na essência humana ligada ao poder político. Essência, diga-se de passagem, que em todos os tempos esteve subjacente aos atos que não sendo controlados legalmente sempre extrapolam para abusos, para as formas impuras de governo apresentadas por Aristóteles, entre elas a tirania.
O apelo ao medievo remete também à lembrança do comportamento político da Igreja na Espanha quinhentista, que deixou na história uma marca sombria cujo nome é Inquisição. Nesta instituição intolerante e radical que se abateu contra os hereges, sendo que a ‘‘caça grossa’’ eram os judeus, quaisquer atos (da tortura à morte na fogueira, passando por outras penas) foram justificados em nome da fé, de certos dogmas, enfim, da ideologia dos que postulavam a verdade única e a impuseram pela força.
Na sua essência e nos seus métodos, portanto, pode-se afirmar sem medo de incorrer em erro, que a Inquisição foi similar ao nazismo e ao comunismo, enfim, aos totalitarismos que infelicitaram o século passado e que fazem lembrar a frase de Raymond Queneau: ‘‘A história é a ciência da infelicidade dos homens’’.
Contudo, a Igreja, não somente a ortodoxa mas a Católica Romana, padeceria sob a égide do comunismo que na prática não foi a utopia de igualdade e felicidade apregoada por Karl Marx. Padres foram presos, escolas católicas fechadas, instituições médicas e de caridade confiscadas, ordens monásticas proibidas e numerosos bispos e leigos condenados como espiões.
Slobodan Milosevic representa este sistema de raivosa e impiedosa ideologia que se abateu sobre os religiosos e há algo em comum entre ele e, por exemplo, Hitler ou Osama Bin Laden. No ex-ditador a mesma fúria implacável, patologicamente nacionalista, arquitetada sobre o terror em massa e no desconhecimento do significado da liberdade, da dignidade e da misericórdia.
Quando estava em curso o julgamento de Augusto Pinochet, o processo foi muito comentando aqui Brasil. Agora está sendo julgado um desses monstros engendrados por falsas utopias e fico curiosa em saber como opinam sobre o caso os teólogos da libertação e os próceres dos nossos partidos de esquerda, entre eles, aquele que continua como candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Afinal, a estrela petista mostra uma irreversível admiração pelos déspotas latino-americanos de esquerda, ou seja, Fidel Castro, com quem diz aprender democracia, e Hugo Chávez, que Lula alcunhou carinhosamente de ‘‘centro-avante matador’’. Curiosidade de uma simples professora que quer saber como nossos defensores do socialismo e inimigos do neoliberalismo se posicionarão (se é que vão se posicionar) diante do caso Milosevic, a menos que todos já tenham se convertido ao neoliberalismo.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina

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