Certamente quase todos os políticos do país devem ter se remoído de inveja do senador Eduardo Suplicy e da senadora Benedita da Silva, por terem sido eles os únicos privilegiados que compareceram ao velório do senador de ficção Roberto Caxias, da novela ‘‘O Rei do Gado’’. Além do mais, ambos estavam perfeitos. O senador Suplicy, com seu semblante de perene melancolia, encaixa-se perfeitamente bem em qualquer funeral. A senadora Benedita, num elegante modelito de luto, esbanjava charme.
Portanto, os dois senadores do PT marcaram um tento e suas performances televisivas valeram por mil antidiscursos, nos quais a imagem se sobrepõe à verbalização. Nas suas próximas campanhas eleitorais poderão reprisar várias vezes a cena e a maioria das pessoas não distinguirá entre o real e o imaginário. Afinal, não quiseram um dia destes linchar um ator que trabalha atualmente numa telenovela só porque em outra ele desempenhou o papel de um homossexual? E quantos atores não são elogiados ou xingados nas ruas, conforme representem mocinhos ou vilões, o que atesta a incapacidade de distinguir entre o personagem e o intérprete?
Portanto, a TV é o meio de comunicação que mais consegue mesclar realidade e fantasia, demonstrando com isso como é fácil iludir, convencer e conduzir seres humanos. Ao mesmo tempo, a televisão é capaz de proteger uma série de símbolos que são processados pelo inconsciente coletivo.
Assim, por mais que dê uma no cravo e outra na ferradura durante toda a telenovela, o diretor Luís Fernando de Carvalho pendeu definitivamente para o lado do Partido dos Trabalhadores e executou um trabalho ideológico, ou como se dizia antigamente, ‘‘engajado’’, ao incluir os dois senadores petistas no seu trabalho. Isso porque, assim como a mão da senadora Benedita, ao apertar a mão da viúva do senador Caxias por cima do caixão, simbolizou belamente a integração de duas raças, outros símbolos estavam implícitos no espetáculo político do velório. Entre eles, pode-se notar, por exemplo, os seguintes:
1. Solidariedade: os senadores do PT foram os únicos que compareceram ao velório, o que pode significar que a solidariedade é própria apenas desses senadores ou do seu partido.
2. Integridade e pureza: os senadores Suplicy e Benedita foram prestar sua solidariedade porque se identificavam com o senador Caxias, o que simboliza que eles e seu partido são também íntegros e puros, e os outros que lá não compareceram não o são.
3. Coragem e heroísmo: se os senadores petistas é que tiveram a coragem de ir ao velório, é porque certamente não lhes falta a mesma virtude para se colocarem na vanguarda das invasões dos sem-terra, como de resto o PT tem feito.
Evidentemente, ‘‘O Rei do Gado’’ consegue passar uma série de outros símbolos através de mensagens político-ideológicas, numa demonstração impressionante de que a TV pode ir além das imagens para convencer e condicionar o público. Por exemplo, não aparece quem atirou no senador Caxias, mas subentende-se que quem fez aquilo foram os maus, ou seja, os fazendeiros, enquanto os bons, os sem-terra, ainda que de armas nas mãos, pediram a paz.

A TV pode ir além
das imagens para
convencer e
condicionar o público


Paz e guerra, bondade e maldade, justiça e injustiça estavam, pois, presentes na cena do assassinato, e de uma maneira quase sem palavras ou imagens, mas apenas simbolicamente. Uma cena forte em que o herói morre por sua causa, e que atingiu os sentimentos dos telespectadores a ponto, com certeza, de fazer muitos chorar. Isso significa que aquilo que se viu ou se intuiu foi um antidiscurso mais convincente que toda uma campanha eleitoral, sendo que a política-espetáculo atingiu o clímax no velório com a presença de dois senadores de verdade imersos num mundo de mentirinha.
Diante de tais recursos de persuasão e de ilusão próprios do simbolismo televisivo, imagine se Hitler, Mussolini, Stalin e outros assemelhados dispusessem desses requintes eletrônicos na sua época. Seriam eles neste caso imbatíveis, ou suas ações se chocariam com a política-espetáculo? Essa é uma resposta difícil de ser dada, mesmo porque se trata apenas de especulação. Em todo caso, levemos em conta os seguintes pontos: o ser humano adora a mentira, só ouve ou vê o que lhe interessa, e é propenso a acreditar no que torna seu mundo mais suportável. Com base nessas características, que constituem o estofo da humanidade, é que vicejam os gurus e os políticos, que com facilidade fazem acreditar nas suas pregações ilusórias.
Além do mais, não é difícil verificar como a propaganda se converteu de uma vez por todas na mais eficaz arte tanto de governar, quanto de vender. Uma arte que é elevada às raias da perfeição quando veiculada pela televisão, a ponto de que se não passar na TV não existe, nem o produto, nem o político.
Nesse sentido é que os senadores Eduardo Suplicy e Benedita da Silva agora existem mais do que nunca no imaginário popular, identificados com o inverossímel senador Caxias. Eles se tornaram o máximo da política-espetáculo.

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