A política espetáculo
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de janeiro de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Certamente quase todos os políticos do país devem ter se remoído de inveja do senador Eduardo Suplicy e da senadora Benedita da Silva, por terem sido eles os únicos privilegiados que compareceram ao velório do senador de ficção Roberto Caxias, da novela O Rei do Gado. Além do mais, ambos estavam perfeitos. O senador Suplicy, com seu semblante de perene melancolia, encaixa-se perfeitamente bem em qualquer funeral. A senadora Benedita, num elegante modelito de luto, esbanjava charme.
Portanto, os dois senadores do PT marcaram um tento e suas performances televisivas valeram por mil antidiscursos, nos quais a imagem se sobrepõe à verbalização. Nas suas próximas campanhas eleitorais poderão reprisar várias vezes a cena e a maioria das pessoas não distinguirá entre o real e o imaginário. Afinal, não quiseram um dia destes linchar um ator que trabalha atualmente numa telenovela só porque em outra ele desempenhou o papel de um homossexual? E quantos atores não são elogiados ou xingados nas ruas, conforme representem mocinhos ou vilões, o que atesta a incapacidade de distinguir entre o personagem e o intérprete?
Portanto, a TV é o meio de comunicação que mais consegue mesclar realidade e fantasia, demonstrando com isso como é fácil iludir, convencer e conduzir seres humanos. Ao mesmo tempo, a televisão é capaz de proteger uma série de símbolos que são processados pelo inconsciente coletivo.
Assim, por mais que dê uma no cravo e outra na ferradura durante toda a telenovela, o diretor Luís Fernando de Carvalho pendeu definitivamente para o lado do Partido dos Trabalhadores e executou um trabalho ideológico, ou como se dizia antigamente, engajado, ao incluir os dois senadores petistas no seu trabalho. Isso porque, assim como a mão da senadora Benedita, ao apertar a mão da viúva do senador Caxias por cima do caixão, simbolizou belamente a integração de duas raças, outros símbolos estavam implícitos no espetáculo político do velório. Entre eles, pode-se notar, por exemplo, os seguintes:
1. Solidariedade: os senadores do PT foram os únicos que compareceram ao velório, o que pode significar que a solidariedade é própria apenas desses senadores ou do seu partido.
2. Integridade e pureza: os senadores Suplicy e Benedita foram prestar sua solidariedade porque se identificavam com o senador Caxias, o que simboliza que eles e seu partido são também íntegros e puros, e os outros que lá não compareceram não o são.
3. Coragem e heroísmo: se os senadores petistas é que tiveram a coragem de ir ao velório, é porque certamente não lhes falta a mesma virtude para se colocarem na vanguarda das invasões dos sem-terra, como de resto o PT tem feito.
Evidentemente, O Rei do Gado consegue passar uma série de outros símbolos através de mensagens político-ideológicas, numa demonstração impressionante de que a TV pode ir além das imagens para convencer e condicionar o público. Por exemplo, não aparece quem atirou no senador Caxias, mas subentende-se que quem fez aquilo foram os maus, ou seja, os fazendeiros, enquanto os bons, os sem-terra, ainda que de armas nas mãos, pediram a paz.
A TV pode ir além
das imagens para
convencer e
condicionar o público
Paz e guerra, bondade e maldade, justiça e injustiça estavam, pois, presentes na cena do assassinato, e de uma maneira quase sem palavras ou imagens, mas apenas simbolicamente. Uma cena forte em que o herói morre por sua causa, e que atingiu os sentimentos dos telespectadores a ponto, com certeza, de fazer muitos chorar. Isso significa que aquilo que se viu ou se intuiu foi um antidiscurso mais convincente que toda uma campanha eleitoral, sendo que a política-espetáculo atingiu o clímax no velório com a presença de dois senadores de verdade imersos num mundo de mentirinha.
Diante de tais recursos de persuasão e de ilusão próprios do simbolismo televisivo, imagine se Hitler, Mussolini, Stalin e outros assemelhados dispusessem desses requintes eletrônicos na sua época. Seriam eles neste caso imbatíveis, ou suas ações se chocariam com a política-espetáculo? Essa é uma resposta difícil de ser dada, mesmo porque se trata apenas de especulação. Em todo caso, levemos em conta os seguintes pontos: o ser humano adora a mentira, só ouve ou vê o que lhe interessa, e é propenso a acreditar no que torna seu mundo mais suportável. Com base nessas características, que constituem o estofo da humanidade, é que vicejam os gurus e os políticos, que com facilidade fazem acreditar nas suas pregações ilusórias.
Além do mais, não é difícil verificar como a propaganda se converteu de uma vez por todas na mais eficaz arte tanto de governar, quanto de vender. Uma arte que é elevada às raias da perfeição quando veiculada pela televisão, a ponto de que se não passar na TV não existe, nem o produto, nem o político.
Nesse sentido é que os senadores Eduardo Suplicy e Benedita da Silva agora existem mais do que nunca no imaginário popular, identificados com o inverossímel senador Caxias. Eles se tornaram o máximo da política-espetáculo.


