A veterana banda de rock Led Zeppelin, numa de suas músicas que em tradução livre seria algo como ‘‘Atalho para o céu’’, conta a história da mulher que achava que tudo o que reluz é ouro. Ao final, ela se vê profundamente decepcionada quando constata que foi enganada por um bando de espertalhões. Qualquer analogia entre a sociedade brasileira, os políticos de plantão e o ‘‘heavy metal’’ em questão parece não ser mera coincidência.
Como acontece sempre às vésperas das eleições, os partidos voltam a discutir com a sociedade seus projetos de governo. Na prática, este hábito é de uma inutilidade completa e absoluta, uma vez que, eleitos, os candidatos esquecem completamente o que propuseram. Agora, o Partido dos Trabalhadores (PT), antecipando-se aos demais, lançou um rol de boas intenções que tem servido de modelo ao possível candidato, Luis Inácio Lula da Silva, em suas peregrinações pelo País.
De cara, percebe-se que o PT mudou. O discurso radical do passado deu lugar a uma proposta, digamos, mais ‘‘light’’. A incógnita é saber se ele, o programa de governo, já não é uma estratégia de marketing para vender a imagem moderada dos petistas, uma vez que nas eleições anteriores Lula foi derrotado exatamente pelo perfil sectário que amedrontava a parcela mais conservadora do eleitorado.
Como todos os programas de todos os partidos, o PT também promete encontrar o caminho da felicidade com mudanças unilaterais, esquecendo-se que as transformações políticas, econômicas e sociais são fruto de um intrincado jogo envolvendo vários atores e nos mais diversos palcos.
A complexidade enfrentada pelos governantes está justamente em administrar interesses contrários, e que são muitos, sentando-se à mesa de negociações e discutindo os destinos do País através de algumas regras universais. Isto vale para todos os partidos, em todos os países. Claro que é possível avançar neste ou naquele ponto, a partir de decisões políticas.
Cabe ao governo federal, por exemplo, decidir se investe na melhoria da saúde pública, da educação, da segurança ou socorre bancos quebrados para salvar a pele de banqueiros falidos. A recuperação de estradas, a ampliação de portos ou da malha ferroviária, os investimentos em infra-estrutura básica, são projetos que deveriam ser parte da rotina de planejamento em qualquer governo e não apenas um apanhado de boas intenções para rechear propostas em épocas de campanha.
Não é preciso ser um gênio em economia internacional para saber que o mundo vive numa instabilidade monetária que pode atingir os países periféricos num piscar de olhos. Nenhum candidato teve a coragem de dizer à sociedade que as transformações pedem profundas alterações em algumas regras básicas, a começar pelas reformas constitucional, tributária e política. E isso não pode ser feito do dia para noite. Vai requerer uma longa articulação entre os poderes constituídos e a sociedade organizada. O que se faz é vender ilusões. Aliás, o próprio presidente Fernando Henrique, no início de seu governo chegou a afirmar que governar o Brasil seria ‘‘fácil’’. Deu no que deu.
Para mudar a cara deste País é necessário, antes de tudo, que a sociedade tome consciência de seus direitos e passe a exigir dos governantes um nível de responsabilidade muito acima do que tem sido visto. Mudamos, sim, nesta última década, mas ainda falta um longo caminho a percorrer.
Seria mais fácil e lógico que os homens que se propõem a governar o Brasil, que não devem passar de meia dúzia de cidadãos, fizessem da verdade sua bandeira maior; e cada eleitor por sua vez, estivesse disposto a investigar e analisar a postura de cada um dos pretendentes.
Ou então que os candidatos pudessem repensar seu caminho. Afinal, ainda há tempo para ouvir Led Zeppelin.
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba
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