A política do ódio
Pense num caso que, em política, pareça completamente esdrúxulo. Como, por exemplo, votar para governador num candidato do presidente Fernando Henrique Cardoso e, para presidente, em Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Em Minas Gerais esse causo existe. É o projeto do governador Itamar Franco, o mesmo que há um mês telefonou ao presidente do PMDB, Michel Temer, oferecendo-se para ser o vice na chapa de José Serra (PSDB) na disputa presidencial.
Se mantida a decisão de Itamar de apoiar Lula para a Presidência da República e o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB), para o governo de Minas, será com cheiro e sabor de vingança. A atitude expõe o desejo incontrolável que Itamar tem de derrotar dois Cardosos. O presidente Fernando Henrique e o vice-governador de Minas, Newton Cardoso, candidato do PMDB à sucessão mineira.
Itamar detesta os dois. Não perdoa Fernando Henrique por ter apostado na reeleição. Considera ter acabado ali o seu projeto político de voltar à Presidência da República em 1998.
No caso de Newtão é pior. Itamar nunca foi amiguinho de seu vice. Sempre o aturou por circunstâncias políticas. Agora, queria que Newton abrisse mão de disputar o governo, deixando-lhe o caminho livre à reeleição. Newtão não topou. E, por isso, Itamar o põe de castigo, deixando que ele seja candidato isolado no PMDB e, de quebra, com o governo estadual contra.
Os amigos de Itamar que, por orientação dele, seguiram para o PDT ou PTB estão zonzos. Correm agora atrás de um palanque de Ciro Gomes em Minas. Contavam com Itamar para apoiar seu ex-ministro da Fazenda. Mas Itamar não quer perder nem uma eleição nem outra. Quer deixar o governo mineiro como o grande eleitor. Por isso, mandou Ciro às favas.
No plano nacional, à primeira vista, quem leva vantagem em Minas são os petistas. Além de Itamar, terão o apoio do PL do senador José Alencar. Mas Aécio entra na disputa ao governo do estado com um leque de apoios. Tem ao seu lado o governo federal, o PPB e, agora, Itamar. Pode até virar o jogo em favor de Serra no estado. E, por ironia do destino, entra na campanha justamente com o apoio do governador que brigou com seu avô Tancredo Neves no passado. Tancredo dizia que Itamar guardava ódio na geladeira. Não perdoava nunca. Agora, Itamar tira todo o seu ódio do congelador e joga no microondas. E vem tinindo contra Fernando Henrique e Newtão.
DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília





