A democracia, já disse o sociólogo Robert Dahl, é um ideal teórico cada vez mais distante da realidade. Principalmente em países onde as elites costumam tutelar o jogo democrático, concentrando a autoridade no Executivo e na administração. Por isso, cabe mais em relação ao Brasil falar-se em poliarquia, que corresponde a um governo de muitos, permitindo-se ao povo apenas participar das principais escolhas e procurando-se administrar, de modo pacífico, as diferenças na sociedade.
Qualquer leitura que se faça sobre as tendências partidárias, em nosso país, reforça a idéia de que estamos caminhando para consolidar a poliarquia brasileira. E nessa esteira, cresce a hipótese de que será pouco provável convivermos com um projeto hegemônico de poder, comandado por um único partido, seja ele o PSDB, como quer o ministro Sérgio Motta, seja ele o PFL, como imaginam os caciques Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel e o formulador César Maia. As características do tecido social e os vetores de nossa cultura política apontam para uma distribuição equânime das bases do poder entre, pelo menos, três grandes núcleos do pensamento nacional.
O primeiro núcleo integra interesses e valores, a ideologia, enfim, dos centros nevrálgicos do país, aí incluídas as grandes áreas metropolitanas, as capitais e as cidades médias, com seus pólos de formação de opinião e eixos de irradiação de idéias. Trata-se do núcleo modernizador da sociedade, na medida em que está na ponta da discussão de temáticas contemporâneas. Em seus espaços, circulam formadores de opinião, comunicadores, profissionais liberais, professores, executivos e empresários, lideranças e setores organizados. No arco ideológico, ocupam posição nas áreas centrais, com nuances à esquerda. E no discurso, interessam-se pela crítica política, reformismo, ética e costumes, justiça, segurança, distribuição de renda, direitos individuais e sociais, educação e meio ambiente, entre as pautas mais correntes. Pregam certo grau de intervenção do Estado na economia aberta. Seriam sociais-democratas. O grupo mais racional.
O segundo núcleo agrega as estruturas tradicionais da propriedade, defende o liberalismo clássico e o conservadorismo político e cultural. Seu raio de ação penetra as áreas rurais, mas começa a invadir os grandes centros, onde conquistam adeptos, graças ao profissionalismo com que encarnam os ideais políticos. Seus participantes estão localizados na parte central direita do arco ideológico e, como pardais, frequentam quaisquer tipos de pasto. Possuem a insuperável capacidade camaleônica de mudar de cor, conforme as circunstâncias. Seu lema é o ‘‘poder pelo poder’’. Seriam os atuais pefelistas. O grupo mais emotivo, que cultiva a lealdade.
O terceiro núcleo junta opositores e contrariados, grupos radicais e minorias de pensamento enraizado. Trata-se do palanque dos descontentes, uma espécie de correnteza que junta as águas de pequenos afluentes. O primeiro núcleo será atendido por um grande partido, de caráter social-democrata, que juntaria o PSDB com parcelas imensas do PMDB e partes do PSB e até do PT e PDT. Os interesses do segundo núcleo serão defendidos pelo atual PFL, a ser engrossado com fatias do PPB, PTB e de pequenas agremiações conservadoras. E o terceiro núcleo se repartiria em pequenas constelações, sendo a maior delas o atual PT. Os radicais tendem a continuar isolados em pequenos nichos.
A idéia de governabilidade, um projeto de poder ou um programa de desenvolvimento tem que considerar, pelo menos, estes três blocos de pensamento. O progresso político, sabe-se, é comandado pelo progresso econômico. As ações do Congresso Nacional, nas últimas semanas, comprovam as duas hipóteses: a economia está puxando política e esta, como se observa, possui três grandes bandas. É a poliarquia em ação.

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