A polêmica dos medicamentos genéricos João Dias Aires Há uma celeuma em torno dos genéricos. Denominação atualizada, daquilo que no passado nós, médicos, chamávamos de ‘‘princípio ativo’’ ou denominação química da substância cuja atividade era obtida nos pacientes, pelos radicais químicos das substâncias. Por exemplo: fenil etil malonil uréia é nada mais, nada menos do que uma medicação para ser utilizada no tratamento da epilepsia, o célebre ‘‘Luminal’’, e com a fórmula pouco modificada, o ‘‘Gardenal’’. Outro exemplo mais acessível é o ácido acetil salicílico. Este era o analgésico distribuído pela sua descobridora, a Bayer, no início do século, e popularizado como ‘‘Bayaspirina’’; a tetraciclina (genérico: ‘‘Terramicina’’. Ou então a metilmelubrina, a célebre ‘‘Dipirona’’ que ao tempo em que os laboratórios oficiais do governo, como o Laboratório Químico Farmacêutico (LQF), de secretarias de Saúde de Estado, recebendo a matéria-prima (importada a baixíssimo custo), colocavam à disposição de suas unidades de dispensações (era hierarquizada a sua distribuição). Dos laboratórios das secretarias de Saúde para os Distritos Sanitários e destes para os Postos de Saúde. Tínhamos, então, a ‘‘Metapirona’’, que vinha aos litros para serem, depois, nos Distritos Sanitários, embaladas em forma de conta-gotas de 20 ml para os Postos de Saúde. Era o ‘‘bate-enxuga’’ das donas de casa, para os filhinhos com febre de 38 a 39 graus, antes de serem levados ao médico. Tudo a custo zero, no esquema dos Postos de Saúde. Digo a custo zero, para a população em geral, aos que recorriam aos Postos de Saúde, área distrital, Há uma explicação, é claro. A matéria-prima (os ‘‘sais’’) era importada e depois distribuída aos laboratórios oficiais (a Ceme) para transformá-la em comprimidos sol-injetáveis, pomadas e pastas. Isto porque estudo consciencioso da prevaldência das ‘‘doenças de massa’’ possibilitou às autoridades sanitárias da época, estabelecer a distribuição aos médicos para toda a sua linha de atendimento nos diversos setores da Saúde Pública. Por exemplo, no Programa de Profilaxia da TB (tuberculose), o standard de tratamento era com base na ‘‘Estreptomicina’’, no PAS, e no hidrazida do ácido nicotínico. Para hanseníase eram os sulfanos como, dentre outros, o ‘‘Promim’’. As vacinas eram na maioria vindas de Manguinhos, salvo as que eram fornecidas pelo Laboratório Merrier da França, para debelar a epidemia de meningite meningocócica nos seus dois tipos de bactérias A e C. E foi um sucesso no combate. E assim todas as medicações de linha básica para atender a demanda dos programas desenvolvidos pelo Ministério da Saúde de então. As endemias recebiam também seu combate com medicamentos específicos, por exemplo no combate ao tafioglobatus e outros vetores da schistosoma era empregado o ‘‘Bayocid’’ nos focos (taboas e vegetais aquáticos de lagoas dos ditos focos). Amputava-se a propagação da grave enfermidade. Depois surgiu o ‘‘Masil’’ para tratamento dos casos confirmados de shistosomose. Infelizmente, a Doença de Chagas envolvia problema mais difícil, e ela ainda fez muitas vítimas, pois os triatomideos (bicho barbeiro) continuaram a habitar as malocas, as casas de pau-a-pique e barroteadas, no nosso imenso interior. E a doença custa anos para se manifestar. E assim poderíamos enumerar uma lista imensa de providências que eram assimiladas pelo Ministério da Saúde, visando a erradicação pura e simples dessas doenças. Para não nos alongarmos: as doenças elencadas, que mereciam aquelas atenções, situavam-se, em princípio, em 300 enfermidades, e depois atingiam a cerca de 600, mais ou menos. Se aquele programa do Ministério da Saúde não tivesse sido atingido na sua estrutura com modificação importante para nova filosofia de atendimento, o SUS, que teve que dispender um numerário crescente em vista de um programa que se propõe tratar ‘‘todas as doenças’’, atendendo ao princípio de que saúde é direito do povo e dever da Nação, no que estamos – e todos estão – de acordo, mas se devendo acrescentar, colocar em execução, uma vez que as doenças de massa fossem todas controladas. Aí, então, caberia recursos e estes sobrariam para atender àquele princípio básico da Constituição. Por ora é mister acabar com as doenças de massa. Não teríamos o surto de doenças evitáveis desequilibrando o orçamento do Ministério da Saúde, e o da Previdência Social, com o congestionamento nos Postos de Saúde. Não teríamos agora que estar nos preocupando com o preço dos medicamentos, pela hora da morte, ou se tratando de câncer, de doenças do aparelho cardiovascular, que necessitam de grandes recursos de material e equipe, todos de alto preço. É necessário avaliar o princípio ativo de todas as drogas, mediante fórmulas semelhantes com nomes e preços diferentes. Está certo o ministro da Saúde José Serra, no enfoque do problema. Não devemos persistir no erro de deixar as multinacionais livres, num comércio que lhes rende com a doença, mais do que as despesas com petróleo importado. Num país de doentes, as múltis estão se cevando às custas de nossa inércia. De acordo. Os genéricos devem prevalecer. - JOÃO DIAS AYRES é médico em Londrina

mockup