''Não há ninguém aqui que seja cem por cento confiável, mas ninguém que não mereça a chance de voltar à sociedade''. Palavras de um dos educadores do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator, contidas na série de reportagens dos jornalistas Alan Maschio e Fernando Faro, deste Jornal, publicadas nestes últimos dias. É sabido que todas as crianças nascem puras e boas e assim se conservam até que, para muitas, a realidade que as rodeia as transforme, para pior. Por trás de tudo está a pobreza extrema, que carrega em seu dorso a desestruturação da família e o ambiente habitacional péssimo e promíscuo, onde tudo falta: água, luz, alimentação, higiene, saúde, conforto. A fórmula mágica de cura existe: é eliminar esses redutos sombrios das civilizações urbanas por via do saneamento dessa situação. Providência que exige dinheiro e tomada de decisão. Dinheiro há, mas se escasseia a vontade política não haverá salvação. Dizer-se que há dinheiro não é afirmação aleatória, porque fortunas imensas são gastas no custo social dos delitos e outros males decorrentes da miséria, somas fabulosas são esbanjadas pelo governo em superficialidades, a onerosa máquina pública suga volume altíssimo em estruturas de pouca utilidade, e bilhões são canalizados para a propaganda governamental. Pode-se afirmar sem margem de erro que há recursos suficientes para solucionar todas as mazelas sociais do Brasil, mas eles são desviados para os excessos. Mais de 60% da arrecadação de impostos ficam em poder do governo central e não retornam na mesma equivalência em forma de benefícios ao povo. O mal da deliquência reside na falta de juízo do governo e da sociedade aquele porque retém e utiliza mal o dinheiro, esta porque não cobra e não deseja envolver-se, a não ser com as lamentações e com a autodefesa individual. Depoimentos de meninos infratores, colhidos pelos repórteres deste Jornal, são estarrecedores e mostram o grau de desvirtuamento de valores a que muitos deles chegaram. Não se questiona que entre esses excluídos das benesses da vida há alguns altamente perigosos e que é necessário isolá-los, na busca da sua ressocialização e da proteção à sociedade, mas o caminho largo da solução aponta para a recuperação das famílias miseráveis, por via da melhora de seu habitat e da oportunidade de uma renda por meio do emprego. Uma unidade de moradia decente e o adicional de uma vaga de trabalho representarão uma cela a menos e um ser humano a menos para ocupá-la. O sistema, se deve proteger os cidadãos munindo-se de instrumentos adequados, deve voltar as vistas também para outro horizonte, muito sombrio, que é o das causas. Ou este país se converterá numa terra dominada pela violência, pelo descontrole e pelo medo, enfim o caos social, e aí a recuperação será mais difícil e o custo altíssimo demais.

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