A pobreza da televisão
Paulo José Cunha
Há alguns anos, o tema de uma redação para vestibular foi ‘‘A TV forma, informa ou deforma?’’ O professor José Roberto Mathias selecionou algumas ‘‘pérolas’’ extraídas das redações e distribuiu por e-mail para várias pessoas. Um dos vestibulandos escreveu: ‘‘A TV possui um grau elevadíssimo de informações que nos enriquece de uma maneira pobre, pois se tornamos uns viciados deste veículo de comunicação’’.
Não ria, leitor. Pois, afora os erros pronominais e de concordância, a ‘‘pérola’’ contém material suficiente para uma boa reflexão. O que mais chama a atenção é a afirmação de que a TV ‘‘enriquece de uma maneira pobre’’.
Têm sido frequentes as análises críticas apontando as mazelas da televisão, principalmente os programas populares. Recentemente, verificou-se um movimento em sentido contrário. Mestre Ariano Suassuna, em belo artigo cita a intervenção do professor Arlindo Machado, da USP e da PUC-SP no ‘‘Encontro Latino-americano sobre TV de Qualidade’’, que critica a carga sobre a má televisão sugerindo que se vire a câmera para o outro lado a fim de se realçar também a boa televisão, ‘‘que sempre existiu’’.
Gabriel Priolli enaltece a posição de Arlindo Machado e enumera dezenas de produções que orgulham a televisão brasileira, lembrando, entre elas, as minisséries produzidas principalmente pela Rede Globo nos anos 80 e a produção do Teatro 2 da TV Cultura nos anos 70.
São lúcidas e pertinentes observações. Mas, sintomaticamente, nenhum dos três se referiu à produção mais recente. E talvez aí recaia boa parte da crítica que condena a má qualidade da produção atual de TV no Brasil. Ainda há poucos dias, por ocasião da morte do poeta João Cabral, a Rede Globo reprisou (para felicidade geral da Nação) um dos melhores momentos da TV no Brasil – o auto natalino ‘‘Morte e Vida Severina’’. Um belo exemplo de como se pode e se deve produzir televisão de qualidade.
No ano passado, um texto clássico do próprio Suassuna, ‘‘O Auto da Compadecida’’, virou uma primorosa minissérie na mesma Rede Globo, sob a competente direção de Guel Arraes. Sem se falar na produção sempre bem cuidada da TV Cultura e de outras emissoras chamadas ‘‘públicas’’ (como se as demais não o fossem). Apesar desses lampejos de ‘‘boa televisão’’, temos de ficar por aqui. Até porque o resto todo mundo conhece – a proliferação de ratos, leões, hulks, feiticeiras, bragas e bregas em geral.
E então, onde chegamos? À conclusão de que é possível, sim, produzir televisão de boa qualidade sem perda de audiência. Isto significa que não tem consistência o argumento de que a baixaria sempre existiu mas a televisão tem também (muita) coisa boa para mostrar. Se compararmos o percentual de momentos considerados ‘‘de boa qualidade’’ (e deixemos a definição da expressão para outra hora) com o tempo disponibilizado para a televisão de má qualidade, vamos verificar uma diferença brutal.
Diferença que, nos últimos anos, vem crescendo vertiginosamente, tanto mais quanto a chamada elite adere à TV a cabo e as TVs de sinal aberto apelam para a baixaria a fim de alavancar audiência. Pior é o eufemismo de classificar fofoca ou entretenimento de qualidade discutível com telejornalismo, como faz o diretor do Domingão do Faustão, jornalista Alberto Lucchetti Jr. na revista ‘‘Imprensa’’.
Num raciocínio recheado de equívocos, Lucchetti esconde os lamentáveis episódios do Latininho e do sushi debaixo do tapete para citar, como exemplos de ‘‘jornalismo’’ as abordagens de Fausto Silva no Domingão ‘‘descobrindo’’ padre Marcelo, de que uma fã tem um filho do falecido cantor João Paulo e o esclarecimento de que o marido de Glória Pires não teve um caso com a enteada. Além de tentar convencer os entrevistadores que as ‘‘pegadinhas’’ são um produto de qualidade pelo simples fato de que dão pico de audiência.
Convenhamos: é pouco. E temos de dar razão ao vestibulando quando escreve, no seu claudicante português, que ‘‘a televisão nos enriquece de maneira pobre’’.
- PAULO JOSÉ CUNHA é professor de Telejornalismo em universidade de Brasília

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