Uma imponente placa de granito parafusada contra a parede do prédio administrativo do aterro sanitário de Rolândia afirma que este está inaugurado. Membros da ONG ambiental Movimento Nossa Terra quando, em 30 de dezembro último filmavam o lastimável estado do aterro em construção, descobriram a placa.
Na filmagem, também foram registradas erosões tomando conta da área do aterro, assoreando plantações agrícolas vizinhas, soterrando o sistema de tratamento de chorume e de drenagem; mudas de árvores ao longo da cerca de arame farpado desaparecendo no matagal; tampa de concreto do poço de coleta de chorume jogada de lado, deixando desprotegidas as bombas de chorume que não puderam ser vistas pela quantidade de água da chuva represada; interruptores de mercúrio no chão da casinha do painel eletrônico sem porta; ligação elétrica improvisada; nenhuma lâmpada nos suportes do barracão de seleção de material e muito material de construção largado.
O cenário é de abandono. A placa inaugural cauxa perplexidade. Não foi dada pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) a licença de operação para o aterro sanitário de Rolândia. Muitas exigências do projeto do aterro sanitário ainda não foram cumpridas. O que foi inaugurado?
A limpeza do município de Rolândia piorou desde que se fechou recentemente a antiga entrada do lixão. Em todos os cantos do município aparece sujeira que os autores nem procuram mais esconder. O clima é de descaso e apreensão.
A campanha do mutirão de limpeza que a próxima administração municipal pretende promover no início de sua gestão não pode ter o sucesso desejado, pois o lixão da cidade, abandonado pela administração de 1997/2000, está entupido. Acusações caem na repetitiva constatação de que ‘‘o povo brasileiro não tem cultura, não tem educação’’.
Os problemas, enquanto isso, agravam-se e nos acostumamos com desastres como é o caso de tantos rolandenses que convivem há 50 anos com moscas e fumaça tóxica do lixão.
Diante deste caos do lixo em Rolândia, a ONG ambiental Movimento Nossa Terra vê um cenário onde não há outra saída a não ser enfrentar o problema na base. Quem sabe como em alguns países pós-calamidade, onde todos arregaçaram as mangas para fazer mudanças? O povo brasileiro também pode. É só cultivar os nossos preconceitos e acordar para as nossas potencialidades.
De prático, do exemplo de Rolândia, semelhante a de tantos outros municípios, há algumas considerações: é preciso registrar tudo, fazer um raio X o mais fiel possível do problema, desmascarar e divulgar a realidade de maneira que todos se sintam atingidos; formar uma agenda comum – todos têm responsabilidade e algumas precisam ser redefinidas; no caso do lixo, talvez a reciclagem não seja o primeiro passo: vamos questionar os métodos que muitas vezes não passam de pacotes tecnológicos importados, propagandas políticas ou oportunidades de vender soluções que desviam do problema.
Separar o joio do trigo requer se aprofundar no problema do lixo, conhecer a realidade local e se orientar pelo que de fato deu certo. O assunto lixo merece toda a atenção tecnológica e financeira por ser uma questão social e ambiental urgente. Trabalho intermunicipal e envolvimento de todos os segmentos da sociedade são uma necessidade básica. Devemos rever as campanhas já gastas de televisão, a panfletagem, os oba-obas ecológicos e as megasoluções.
O sucesso está na simplicidade e na criatividade local, que precisam ser descobertas. É preciso o debate sempre com todos. Os grandes fóruns necessitam da participação e da linguagem acessível ao público leigo. Cada cidadão informado e motivado poderá ajudar e exercer crítica construtiva, sem medo de sofrer represália, ser carimbado de anarquista ou oposicionista. Nossas instituições públicas devem ser levadas à sua função de servir e não de conduzir a sociedade.
A placa de inauguração do aterro sanitário de Rolândia, entre tantas placas de obras públicas incompletas e sem condições de funcionamento, provoca revolta. Chega! Inaugurar placas não é a solução dos problemas da sociedade.
- DANIEL STEIDLE é presidente da ONG Movimento Nossa Terra, Rolândia

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