A pessoa, o fato, a civilização
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de abril de 1998
Joel Samways Neto 
Complicado falar de civilização em espaços restritos de colunas de jornal. Porque as ciências sociais não são ciências exatas, e a sociologia e a antropologia até hoje não pacificaram um entendimento acerca do melhor conceito de civilização. No entanto, nunca essa conceituação foi tão necessária - e mais necessária, ainda, a sua divulgação.
Compreender o significado - ou, pelo menos, algum significado - de civilização permite-nos alcançar parâmetros comparativos para avaliarmos nosso estágio atual dentro do processo civilizatório. Estamos melhores enquanto homens, indivíduos isoladamente considerados? Estamos melhores enquanto sociedade?
E. B. Tylor disse que a vida humana pode ser dividida, grosso modo, em três estágios: selvagem, bárbaro, civilizado (in Dicionário de ciências sociais, MEC-FGV). Parece interessante tal classificação, principalmente para ser divulgada através da mídia. Agora, como saber a localização dos limites entre um estágio e outro? Aliás, é flagrante que em certos setores do conhecimento humano, avançamos muito. Mas também é verdade que, noutros setores, continuamos um tanto quanto bárbaros (para não dizer completamente selvagens). A tecnologia a favor da humanidade é prova de civilização. A tecnologia contra a humanidade (p.ex., a indústria armamentista) é prova de barbárie e selvageria.
De uma maneira geral, na média, a humanidade melhorou. Claro que ainda podemos testemunhar, às vésperas do século 21, a ocorrência de campos de concentração (como vimos durante a guerra entre sérvios e croatas, na ex-Iugoslávia, não faz muito tempo). Mas são exceções, e prontamente repudiadas pela comunidade internacional (embora nem sempre com a energia que seria de se esperar). As manifestações, organizadas ou não, em defesa da vida, em defesa do ambiente, em defesa da história, dos direitos humanos etc., no mundo inteiro, demonstram que provavelmente não exista uma única pessoa neste planeta que desconheça o significado da liberdade, o significado da paz. O que pode é faltar argumento, conteúdo, para a expressão desses valores, mas que as pessoas sabem, elas sabem - elas sentem.
Essa melhora precisa ser evidenciada, a fim de influenciar as outras áreas da atuação humana, melhorando-as igualmente. Isso precisa ocorrer na esfera de vida pessoal dos indivíduos e na esfera de vida coletiva. É curioso como as pessoas podem, de repente, aplaudir invenções, criações, inovações e descobertas voltadas para o bem da humanidade, e, ao mesmo tempo, ser agentes do atraso, da barbárie. Note-se o recentíssimo caso brasileiro, ligado ao ex-deputado federal Sérgio Naya, engenheiro civil, construtor. O prédio Palace 2 construído pela firma de Naya, desabou. Houve mortes, danos materiais e morais. Daí a imprensa veiculou uma gravação, em fita de vídeo, na qual Naya contava vantagens a um grupo de vereadores. Disse uma porção de bobagens, ou bravatas, conforme definiu o próprio ex-deputado. Naya passou a ocupar o lugar de inimigo público número um, segundo o julgamento de boa parte da população. Pois foi surpreendente verificar que muitos brasileiros passaram a nutrir um ódio pessoal contra Sérgio Naya. Era ouvir as pessoas, em rodas de cafezinho, em conversar à toa, na fila do banco, do ônibus, em qualquer lugar. Os comentários realçavam os pontos negativos e concluíam pela periculosidade da pessoa Sérgio Naya. E o malhavam feito Judas em sábado de aleluia (outra atitude bárbara, anticristã). Ainda que pague por seus erros, Naya será um dia perdoado?
Considero que saber distinguir entre pessoas e o fato por ela praticado é um exemplo de civilização. O fato criminoso merece punição, a pessoa, perdão. A Justiça formal, dos tribunais, faz exatamente isso: pune o fato antijurídico. A condenação do culpado tem como objetivo a reparação do dano causado, dentro do que determina a lei. Os juízes, em tese, não odeiam os culpados. Grande parcela da população brasileira, porém, costuma odiar a pessoa responsável por esse ou aquele fato equivocado, irregular, criminoso. Lembre-se Paulo César Farias, já desencarnado, condenado por ter cometido fatos delituosos. Vi muita gente faiscar de ódio quando falava dele e suas aventuras. Não é curioso? Pessoas odiando pessoas. Pessoas, iguais na falibilidade, criticando a falha de outras pessoas. Iguais (na essência) criticando iguais.
Se os julgamentos da Justiça devem obedecer as parâmetros da civilização, o mesmo se diga em relação aos julgamentos morais, esses que fazemos todos os dias, contra nosso semelhante.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná.


