Peço calma aos leitores. Refiro-me apenas à heterodoxia! Igrejas abertas e tolerantes. Mas no fundo, todos estes eufemismos, se referem ao mesmo: a Igreja Cristã é desde sempre mais magnânima com o diferente do que se possa imaginar! A imagem de uma instituição monolítica que abomina os que pensam diversamente foi caindo desde Lutero. Ou se quisermos desde o século 11. O pensamento cristão comporta a heresia no sentido restrito do mesmo! Quando os orientais se separaram de Roma, houve excomunhão recíproca! Era o primeiro impacto de um casamento desfeito! Hoje, eles são os "irmãos orientais do catolicismo"! Quando a Reforma impôs a possibilidade de também haver outras igrejas cristãs, a casa quase ruiu! Ameaças e guerras se sucederam.

Hoje a palavra ecumenismo é mais do que um charme linguístico! Todos, de lá ou de cá, se respeitam mutuamente sem acusações de exclusividade na herança do patrimônio cristão! E por que deveria ser diferente? Onde está escrito que Jesus Cristo fundou uma religião? E que essa seria uma doutrina inquebrável e indivisível? A expressão "que todos sejam um, como tu Pai estás em mim e eu em ti" (Jo17.21) não pode ser interpretada com a singeleza de uma convocação à unicidade e à intolerância do diverso!

A outra expressão bíblica "quem não é contra nós está a nosso favor" (Mc 9,40) deve corroborar a primeira e abrir as portas a essa "heresia" referida inicialmente! Insisto neste termo, pois o seu uso advém exatamente dos tempos em que a unidade do pensamento cristão passava pela pertença a uma única instituição e à fidelidade a dogmas doutrinais! A expressão "extra eclesia nulla salus" (fora da Igreja não existe salvação), que chegou ao século 20, tornou-se obsoleta e caiu!

Os protestantes conviveram desde Lutero, Calvino e outros, com a sucessão de igrejas que discutiam entre si os elementos que mais ou menos as tornavam fiéis ao pensamento dos evangelhos. Nem sempre essas divergências foram abordadas pacificamente em torno de uma mesa redonda! Até hoje, inúmeras denominações cristãs abrem templos nas esquinas das nossas cidades.
A Igreja Católica, não é diferente: convive internamente com inúmeros grupos, que literalmente se chamariam de hereges! Não comungam com o pensamento central, divergem explicitamente, omitem-se na execução das normas e criticam abertamente o pensamento dos líderes! O cardeal Kasper, braço direito do papa, respondeu na Argentina à pergunta se poderia haver um cisma na Igreja Católica, dizendo que o "cisma já existia na prática"! Os católicos são rebeldes, e porque não dizer hereges, ao permanecerem unidos com tantas disparidades! Em tempos passados próximos, alguns papas quiseram manter a unidade através de um arrocho doutrinal e expurgando tendências contrárias. Com Francisco a postura é radicalmente outra. A novidade está na tolerância aos discordantes e essencialmente na convocação à fidelidade a uma pessoa e não a uma doutrina! Esta engessa o pensamento cristão genuíno e nos afasta do essencial!

Ao resgatarmos o termo heresia, saberemos que se refere apenas a uma escolha ou opção divergente do pensamento hegemônico. Segundo Georges Duby, "todo o herético tornou-se tal por decisão das autoridades ortodoxas! Ele é antes de tudo um herético aos olhos dos outros"! Quanto ao cristianismo, ele poderá estimular e reforçar a tolerância que brota das atitudes de Jesus e afirmar-se neste novo milênio, como o contraponto ao obscurantismo medieval que tanto nos faz retroceder! As religiões precisam dialogar, pois nenhuma possui a verdade toda sobre Deus e o sagrado. A busca frenética por uma ortodoxia, pode levar ao fundamentalismo; o que julga possuir o fundamento. Isso seria uma pretensão filosoficamente absurda para o ser humano!

mockup