A perigosa mentalidade do atraso - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de abril de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Alguns acontecimentos atuais demonstram o quanto ainda estamos distantes de nos livrarmos da mentalidade do atraso, que entranha sobretudo nosso ambiente político e impede o desenvolvimento econômico a que faríamos jus por nossa potencialidade e riquezas naturais.
Um desses acontecimentos foi o espetáculo do Dia de Tiradentes, protagonizado esta semana pelo governador Itamar Franco em Ouro Preto, Minas Gerais. Aproveitando-se da data dedicada a um herói, o governador armou para si o palco, e nele desfilou com ares majestáticos e satisfeitos, tal qual um Mussolini das Alterosas.
Para dar garbo ao acontecimento e demonstrar todo seu rancor e hostilidade ao presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador mineiro convocou a chamada esquerda brasileira, ou seja, os adversários mais ferozes do presidente, sendo que alguns deles acalentam, como o próprio Itamar, o desejo ardente de assumir o cargo mais alto da República. Isto, aliás, já tentaram várias vezes e em vão, através do processo eleitoral, como foi o caso de Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel de Moura Brizola. Mas sem eleitores suficientes, Lula e Brizola continuam em busca do seu objetivo, agora calcado na obsessão golpista que prega a renúncia de Fernando Henrique, ou da iniciativa de atrair às ruas grandes massas que clamem, sem saber bem por que, pela deposição do presidente.
Estes eternos postulantes do poder pelo poder não possuem propostas viáveis nem programas coerentes. São adeptos do quanto pior melhor, e sua única ação política se concentra em fazer oposição, o que é fácil e cômodo. E oposição eles fizeram no palco armado por Itamar Franco, onde vociferando à vontade com suas fitas vermelhas penduradas ao pescoço, demonstraram-se para o povo que se divertia indiferente nas ladeiras de Ouro Preto.
A festa das bandeiras vermelhas, algumas ultrapassadamente decoradas com a foice e o martelo, teve muito circo e pouco respeito à memória do mártir da Inconfidência Mineira. De fato, mediocrizou verdadeiros ideais de luta, na medida em que o governador Itamar distribuiu a Grande Medalha da Inconfidência a anti-heróis como quem dá milho aos pombos, enxovalhando assim a memória de Tiradentes.
Entre os agraciados, estavam, inclusive, alguns sem-terra, cujo MST é hoje símbolo não da reforma agrária justa e necessária, mas da violência, da ilegalidade, do desmando, de objetivos políticos que visam inviabilizar o campo para desestruturar as cidades.
Ao condecorar seus convidados sem-terra, num gesto populista e demagógico, o qual inequivocamente traduziu mais uma manobra de atrair as graças da chamada esquerda, Itamar Franco demonstrou até onde o levam seus recalques e achaques com relação ao presidente Fernando Henrique. Transformado num socialista de mentirinha, como tantos outros no Brasil, o governador de Minas nivelou por baixo a homenagem a Tiradentes, e protagonizou no dia 21 de abril o mais recente e explícito espetáculo da mentalidade do atraso, repleto de besteirol, inverdades e demagogia barata.
Mas esta mentalidade não pára por aí. Ela aparece nitidamente em outros acontecimentos, mais preocupantes do que os jogos de cena de Itamar e de seus camaradas. Um deles, é a CPI dos Bancos.
Quando o País ia se refazendo da crise de histerismo de Itamar Franco, que no princípio deste ano balançou as bolsas mundiais, atraiu a desconfiança dos investidores estrangeiros, com consequente evasão de divisas, e causou sérias avarias ao Plano Real, portanto à estabilização econômica, portadora de incalculáveis e concretos benefícios à Nação, temos agora a CPI dos Bancos, com seus resultados duvidosos, sua violência inquisitorial, seu perigo latente de complicar de novo a economia que começava a se restabelecer do faniquito de Itamar.
E sobre o assunto, considero interessante citar pequeno trecho de um artigo publicado na quinta-feira passada em O Estado de S. Paulo, da autoria de Gilberto de Mello Kujawski: Toda CPI, até mesmo quando proposta pelo partido que se arroga à condição do mais puro, idealista e patriótico dos partidos, como o PT, já nasce inquinada de politização. Mesmo quando existem fatos graves e incontestáveis a apurar, toda CPI sofre desvio de seus objetivos iniciais. O leque inquisitorial abre-se demais, forma-se um cenário que lembra o tribunal da peça e do filme As Feiticeiras de Salém e se acaba confundindo a nuvem com Juno; com os holofotes da publicidade promovendo em heróis os severos inquisidores, como comprometendo-se a certeza das conclusões em meio a tanto personalismo.
Ainda entre os fatos perturbadores e perigosos, temos a política da CNBB, entidade que, por mais que neguem os bispos que a compõem, comporta-se há bastante tempo como um partido de esquerda. Este partido (sendo que partido significa parte e a eclésia é universal), defende o MST, portanto, a violência e a ideologia socialista do Movimento; bate na surrada e falsa tecla nacionalista, que transforma o FMI em demônio; declara como artigo de fé que o Plano Real é uma ficção, o que significa na prática a defesa do retorno ao flagelo da inflação; opõe-se terminantemente à globalização, como se uma borrifada de água benta pudesse exorcizar um processo mundial, que traz no seu bojo uma tendência inexorável; é contra a tecnologia e prega a agricultura de subsistência, o que em essência significa um retrocesso à Idade Média.
Observando esses episódios, entende-se porque é tão difícil o desenvolvimento brasileiro. Às vésperas do século 21 ainda estamos tentando emergir da mentalidade do atraso, trava-mestra do nosso progresso, sendo que cabe a nós, enquanto povo, transpor esses perigosos obstáculos às nossas necessárias realizações de prosperidade.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária em Londrina
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