A pequenez do português - Renzo Sansoni
A pequenez do português
Renzo Sansoni
Faço parte da tribo contrariada, e posuda, com o mau uso da língua portuguesa. Não tanto por ser inocentemente patriota, e nem por achar que nossa língua é a mais linda do mundo. Longe disso; o que me move é a convicção de que o idioma torna as pessoas mais autoconfiantes e demonstra que o País tem rumo e tem rubor na face. Língua forte, povo com juízo.
O fato motivador destas linhas foi um detalhe visto num restaurante de segunda categoria, numa cidade de boa categoria, escrito por uma sujeito sem nenhuma categoria. Querendo fazer xixi, fui ao banheiro asseado do restaurante. Lá estava escrito numa placa: Man. Do outro lado, Woman. Escrita grande, à mão, de forma desajeitada, péssima caligrafia e sem nenhuma explicação/tradução para o zé povão da dita cidade, e das redondezas.
Após o xixi, resolvi conversar com um dos garçons e tentei tirar dele a tradução do man/woman. Ah! Doutor, estou trabalhando aqui tem pouco tempo; quando cheguei já estava escrito e não sei o que significa. Só sei que daquele lado é para mulheres, e deste lado é para homens. De vez em quando dá uma confuzãozinha, mas a gente vai apartando e levando com brincadeiras. E sorriu, mostrando uma enorme falha nos dentes da frente.
Adoro a língua inglesa, mais pelo lado profissional/cultural do que pela beleza de per si. Acho, outrossim, que sem o domínio desta língua, o cidadão vai ficando para trás, e servindo aos que a dominam com destreza. Ou seja, em breve, muito breve, haverá dois tipos de pessoas: as que falam inglês e as que não falam. Nem é preciso dizer qual a categoria que estará em desvantagem.
Mas permitir que se escreva em nossas placas com esta língua, sem que seja obrigatório, primeirissimamente, a escrita em português, é muito pouco melado para as muitas formigas de minha indignação. Aí dá raiva e muita vontade de chutar o balde de lama no colo das autoridades. Para que o fedor da omissão e da paspalhice marque a irresponsabilidade destes senhores, sem nenhuma preocupação com nosso português anêmico e passado para trás. Ah! Linguajar de Camões e de Machado de Assis, Rui Barbosa, e outros elevados de cultura e saber. Como sua cotação está em baixa na bolsa da brasilidade. Como dói nos espíritos destes homens tanta humilhação e tanta fanfarronice para com nossos vocábulos!!! E eles nem estão por aqui para puxar a orelha de nossos zeladores.
Fica registrada minha bronca e petulância. Pode não ser muita coisa, mas vale a comoção e a quixotada. Que nossos vereadores, prefeitos, governadores etc. fiscalizem e façam obedecer um dos mais elementares princípios de uma sociedade democrática: o respeito enorme e casto para com nossa pátria língua. E que nossos professores botem a boca no trombone. Viu, denunciou. As outras línguas, mesmo financeiramente mais abastadas, que venham depois e mais para baixo, sem nenhum demérito. Estamos no Brasil, ora bolas.
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia





