A hora da onça beber água está se aproximando e os governantes que pretendem se reeleger ainda têm uma remota possibilidade de fazer correções na gestão. Para tanto, precisam analisar as causas das deficiências da administração, ir direto às soluções, sem provocar celeumas de efeito catastrófico sobre a imagem do Governo e navegar sem provocar marolas nas águas profundas dos territórios aliados. Em resumo, em 13 meses terão de fazer o milagre de uma boa administração - se ainda não o fizeram - e multiplicar pães e peixes para saciar os famintos.
Sugere-se, inicialmente, uma reflexão sobre os motivos dos fracassos. Há quatro razões para tanto: avançar sem bússola, caminhar na direção errada, operar mal os projetos e gerenciar de modo deficiente. A primeira razão é a mãe das outras. Abrindo frentes de trabalho em todas as direções, os governos acabam pulverizando a ação governamental, definhando a estratégia-mor e entortando o que deveria ser a coluna vertebral. Ao agirem dessa maneira, os executivos são movidos por grande ambição, pretendendo acender uma vela a Deus e outra ao diabo. As duas velas, de tão pequenas, queimam logo, abrindo profunda escuridão e um grande buraco na imagem governamental.
A segunda causa diz respeito aos caminhos escolhidos. Alguns são manifestamente tortos, outros dão em uma indesejável encruzilhada. Em termos concretos, aí se juntam programas mirabolantes ou socialmente sem interesse, projetos de duração que ultrapassa o mandato e ações demagógicas de especulação eleitoral. A população, mesmo a mais rude, distingue entre o inútil e o fútil, o viável e o inviável, o gesto magnânimo e a postura marota. Nesse sentido, um governo é a imagem dos espaços por onde anda. Se as trilhas são esburacadas, furada é a cara do governo.
O terceiro motivo da ineficiência governamental se relaciona às operações mal realizadas. Em certos casos, o planejamento é correto, mas a execução é capenga. O processamento administrativo requer controles rígidos, sistemas de qualidade para monitoramento de obras e rigidez no cumprimento de cronogramas. Na administração pública, desenvolve-se uma cultura de acomodação, alimentada pelos vícios do patrimonialismo, do fisiologismo e pela má qualidade dos operadores, sejam eles internos (funcionários) ou externos (empresas de terceirização). Parte apreciável do Custo Brasil provém das operações inadequadas, dos trabalhos incompletos, das ações incontroláveis que se exercem em todos os cantos da malha administrativa.
Por último, aparece a má gerência dos programas, responsável como a primeira causa por outras deficiências. Aparecem como subprodutos da gerência inqualificada, a improvisação, a ausência de prioridades, a defesa de interesses particulares ou grupais em detrimento do ideal coletivo, o amadorismo, a falta de vontade e até a desatenção. Os atritos que ocorrem nos quadros de primeiro e segundo escalões se devem geralmente a erros ou visões distorcidas pelo planejamento governamental.
Quem quiser saber a quantas anda um governo, basta colocar a peneira de quatro furos sobre ele. Não será difícil colocá-lo numa grade entre o ótimo, o bom, o regular e o péssimo. Para o governo de Fernando Henrique, por exemplo, indentificam-se problemas críticos na escolha de alguns caminhos, principalmente na trajetória social, esquecida. A banda financeira da administração vai bem, a banda social fraqueja. A feudalização administrativa também é patente: cada ministério parece um governo diferente. A coordenação é falha, porque nas proximidades do presidente sempre falou uma forte Casa Civil. E é por isso que o maestro acaba sendo barítono e tenor de sua própria orquestra.

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