Quando observo o ditador cubano Fidel Castro e o falso democrata e presidente da Venezuela Hugo Chávez, me vem uma imperiosa necessidade de recordar certas trajetórias históricas da América Latina, pois essa me parece ser a maneira mais conveniente de compreender o poder e o fascínio que os caudilhos ainda exercem por essas plagas.
Lembro, então, que partir de 1810, iniciou-se o processo de independência das colônias hispânicas e a América Espanhola passou o resto do século XIX em lutas internas, guerras civis e golpes de Estado.
Após a ruptura com a Espanha a situação piorou, pois foram mantidas as estruturas sociais da desigualdade, avolumou-se a questão política e foram deitadas as profundas raízes da instabilidade institucional. Portanto, o rompimento com a metrópole findou um equilíbrio sem conseguir por outro em seu lugar. Era o estilhaçamento do império e o nascimento das repúblicas sob a égide dos caudilhos.
Os caudilhos emergirão das guerras da independência, lutando à frente dos seus bandos armados. Bastante numerosos de início, serão reduzidos por terem sido submetidos a supercaudilhos. Surge a era de Rosas, Porfirio Díaz, Juan Vicente Gomes etc. Extinguindo caudilhos os regionais e assumindo o comando político, foram eles os protótipos de futuros ditadores latino-americanos.
Conforme Carlos Rangel, ''o exercício dessas ditaduras eficazes não foi muito bom de ver e ainda menos agradável de suportar''. Na verdade, a ''pedagogia política'' desses tiranos foi feita na mesma linha de violência, de autoritarismo, de intolerância dos conquistadores espanhóis e das sociedades pré-colombianas mais evoluídas.
Tudo isso significa que as ''revoluções'' das oligarquias nativas contiveram muito mais o elemento da tradição do que o da mudança. O que se desejava alterar era a composição do poder e não a sua essência.
O Brasil tem vários aspectos que o diferenciam do restante da América Latina: a origem portuguesa, a manutenção do gigantesco território, a independência proclamada por decreto governamental. Mas apesar de tais peculiaridades não nos faltaram vários traços comuns à personalidade coletiva latino-americana tais como: antiamericanismo doentio, centralismo estatal, corrupção endêmica, desigualdade social, vezo autoritário, paternalismo, clientelismo, mitos revolucionários. Tão pouco deixamos de ter caudilhos à moda brasileira.
Tudo isso me vem à mente quando observo Fidel Castro e Hugo Chávez e, porque não dizer, Luiz Inácio Lula da Silva, profundo admirador do ''Comandante'' Castro com quem aprende ''democracia'', e do histriônico Chávez a quem chamou de ''centroavante matador''. Lula é mais um projeto de caudilho do que um caudilho, mas é bom lembrar que ele não admite prévias nem para a escolha de candidato à Presidência dentro do seu próprio partido que, aliás possui inequívoca tradição autoritária. Exemplo disso aparece quando o PT abate seus melhores quadros a partir do momento em que estes não rezam pela cartilha da cúpula de comando.
Interessante é que Lula ainda não percebeu que Cuba, como comentou um dos meus correspondentes pela Internet Antonio M. Sepúlveda, ''não tem eleições livres; não dá liberdade de expressão aos seus cidadãos; nega aos cubanos o sagrado direito de ir e vir; Fidel Castro persegue, tortura e sacrifica aqueles que se opõem ao ideário socialista''.
Quanto a Chávez, Lula disse ainda: ''Não podemos esquecer que ele sempre respeitou a Constituição''. Lula também não sabe que Chávez obteve através de um plebiscito a instalação de uma Assembléia Constituinte que lhe deu plenos poderes. Com essa manobra demagógica se fez eleger novamente presidente para um mandato de seis anos. Então obteve amplo domínio sobre o Congresso, interferiu nas instâncias superiores do Judiciário e, conforme ''O Estado de S. Paulo'' do dia oito deste, ''ordenou uma 'revolução cultural', impondo às escolas novos currículos encharcados de ideologia, a exemplo do que seu mentor Fidel Castro fizera em Cuba''.
Até quando nós, latino-amerianos, seremos subservientes e coniventes com a pedagogia política dos caudilhos?


- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária
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