A pecuária e a degradação do Noroeste -João Batista Campos
A pecuária e a degradação do Noroeste
João Batista Campos
O Paraná, no final do século XIX, possuía 83% de sua área coberta com florestas. O restante era de campos naturais, afloramentos rochosos, restingas e outras formações. Atualmente, a situação é crítica e na Região Noroeste é alarmante. Remanescem apenas 7% de cobertura florestal no Estado e na Região Noroeste menos de 1%.
O processo de ocupação iniciou-se no Litoral, seguindo para o Primeiro Planalto de Curitiba e, de forma relativamente rápida, para o Segundo Planalto. Ao atingir o Terceiro Planalto (Norte, Noroeste e Sudoeste) em 1940-50, o ritmo de desmatamentos foi alucinante. Em menos de 40 anos, a exuberante floresta foi quase totalmente destruída para dar lugar a culturas comerciais. No princípio com o café e após, na década de 70, com soja e trigo e, mais recentemente, com a pecuária.
O café, cultura que pelas suas características de produção necessita de grande quantidade de mão-de-obra, viabilizava as pequenas propriedades. Nessas propriedades, além dele havia espaço reservado para pomar, criação de animais. Nas ruas do cafezal eram plantados os produtos básicos para alimentação das famílias (arroz, feijão, milho) e sempre eram reservadas áreas com florestas que serviam para fornecer palanques para cercas, mourões para construções, cabos de enxada, e outras utilidades.
É comum ouvir pessoas mais antigas que viveram esses dias dizerem que naquele tempo existia vida no campo! Entre 1962 e 1967, devido à superprodução do café e a fim de manter os preços internacionais do produto, foi implementada uma política de erradicação da cultura, quando foram eliminados perto de 250 milhões de cafeeiros. No Noroeste do Estado, foram eliminados 62.807 milhões de pés.
Nesta região o café foi substituído pela pecuária que, por não necessitar de grande quantidade de mão-de-obra, ocasionou um processo agressivo de esvaziamento do campo, desaparecimento das vilas e patrimônios, evasão da população das pequenas cidades e inchamento das grandes. Em 1970, Altônia tinha 43.042 habitantes (4.019 na zona urbana e 39.023 na zona rural). Em 1991, tinha apenas 24.590 habitantes (57% da população de 1970) mostrando um crescimento da população urbana em 296,7% (11.924 habitantes) enquanto a população rural decresceu em 67% (12.666 habitantes). Em 1970, Icaraíma tinha 24.857 habitantes (4.018 na zona urbana e 20.839 na zona rural), e em 1991 a redução foi drástica: 11.965, sendo 6.707 na zona urbana e 5.258 na zona rural. Esses municípios localizam-se no Noroeste.
A conta é simples: para tocar 10 hectares de café é necessário no mínimo uma família; para 100 hectares com gado, apenas uma família toca com as mãos nas costas. Com a expulsão do homem do campo, os retirados foram para outros Estados ou engrossar os cordões de desempregados e marginalizados dos centros maiores.
Como se não bastasse este desalojamento compulsório, os grandes criadores de gado sorrateira e traiçoeiramente invadiram as ilhas e várzeas do Rio Paraná, expulsando mais um contigente de pessoas: os ilhéus e ribeirinhos. Esta foi a estratégia: com a grande enchente de 1983, quando ilhas e várzeas do Rio Paraná ficaram seis meses debaixo da água, ilhéus e ribeirinhos tiveram que fugir. Quando o rio estava abaixando, os pecuaristas introduziram gado nas ilhas. Estava assim configurada a ocupação pelo gado e expulsão do homem. Em algumas regiões, como a Ilha Grande, foi também utilizado o búfalo que, por suas características de rusticidade e adaptabilidade, não necessita de pastagem implantada e, como era criado sem cercas, destruía e impedia que os ilhéus plantassem lavouras. Assim, a introdução e a criação de gado na região deve ser vista como uma atividade que gerou grande desagregação social.
Sob a ótica ambiental, a criação de gado proporcionou a destruição dos últimos resquícios de florestas que ainda restavam na região e que, na visão imediatista, não mais tinham utilidade. É que para ser viabilizada economicamente uma propriedade com pecuária extensiva, é necessário grandes áreas, o que leva a concentração fundiária e a ocupação total e inadequada da propriedade. Dessa forma as florestas existentes tombaram para dar lugar ao capim. A biodiversidade da região está, agora, restrita ao que podemos chamar de bidiversidade: capim e boi.
Assim, além da necessidade de substituição de áreas naturais por pastagens, o gado provoca a compactação do solo, impedindo ou dificultando o processo de restabelecimento da vegetação; ocasiona o empobrecimento em quantidade e qualidade do banco de sementes, com o pisoteio; elimina espécies florestais e, criado extensivamente nas ilhas, compete com animais silvestres.
Pode-se argumentar que poderia ser outra atividade (monocultura mecanizada por exemplo) a gerar todo esse distúrbio social e ambiental. Poderia. Mas não é. No caso específico, foi a pecuária que promoveu essa situação, portanto é sobre ela que devemos retratar.
Desta forma, o estabelecimento da pecuária na região foi um processo sórdido que, em um primeiro momento e ao foco de poucas luzes, pode parecer natural e espontâneo. Mas não é. Foi causado pela manipulação e especulação econômica de mercado, pouca visão social de longo prazo dos administradores públicos e falta de amparo e alternativas viáveis para a pequena propriedade. A situação é lastimável.
É necessário trazer à discussão qual a estrutura fundiária que se quer para a região: o latifúndio excludente da pecuária extensiva ou a viabilização de áreas e formas de ocupação que incluam em suas premissas o homem e o meio ambiente. A coerência e os fundamentos éticos humanitários indicam a segunda opção como a mais correta; e os fatos provam que a atual forma de uso dos recursos ambientais na região não é um bom caminho a ser trilhado.
Dessa forma, é necessário e fundamental agir de forma firme e decisiva para que, aqueles que apreciam, quando for saborear um pedaço de carne de gado poder ter a certeza de que esta carne não foi produzida à custa da degradação ambiental e exclusão social.
- JOÃO BATISTA CAMPOS é agrônomo e doutor em Ecologia-Ciências Ambientais em Maringá





