Segundo o economista, diplomata e deputado Roberto Campos, toda mudança impõe custos. ‘‘Quem sai de uma cirurgia’’, diz ele em seu tradicional sarcasmo intelectual ‘‘tem de penar um pouco na recuperação, principalmente quando os médicos obrigam levantar da cama e andar’’. E conclui: ‘‘...Isto também é verdade na transição econômica’’. Uma rápida análise da economia brasileira mostra claramente que, desde a década de 30, a partir da intervenção do Estado e do conluio com a iniciativa privada, um sem número de setores - para não dizer a quase totalidade - mantiveram-se sob o mandato de uma certa reserva de mercado; ou então, graças às benesses oficiais, mantiveram seu nicho com aparente tranquilidade, sem nenhuma preocupação em desenvolver-se tecnologicamente, afinal, a competitividade externa era algo muito distante de nosso cotidiano. Agora, com o fim das fronteiras econômicas, o experiente deputado diz que vivemos uma avalanche de dilemas, que ele prefere chamar de ‘‘angústias da globalização’’.
Pois são exatamente estas ‘‘angústias’’ que tem se abatido também sobre o setor pecuário brasileiro, a partir do instante que Uruguai e Argentina passaram a dividir um mercado até então, digamos, cativo de produtores nacionais: o setor leiteiro. Vale ressaltar que a grande controvérsia neste instante, são acusações por parte do Brasil de que empresas argentinas estariam importando leite em pó da Comunidade Européia, à custos subsidiados, e numa triangulação irregular - portanto, não prevista no acordo - reexportariam como sendo um produto ‘‘made in Argentina’’. Sem dúvida que, neste caso às autoridades brasileiras devem necessariamente apurar os fatos a fim de que não haja nenhuma denúncia não esclarecida; da mesma forma que os argentinos questionaram e sobretaxaram às exportações de açúcar, acusando-nos de subsidiar a produção nacional.
Mas acima destes fatos isolados, a grande questão que se coloca à pecuária brasileira, é a dura e crua realidade que tanto o Uruguai como a Argentina suplantam em muito a produtividade média nacional, tanto no setor leiteiro como de corte, tornando-os altamente competitivos, principalmente face a economia de escala. Dada a política econômica do governo federal, as elevadas taxas de juros provocam uma enorme discrepância nos custos de produção dos três países. O leite brasileiro é cerca de 25% mais caro que o argentino e 40% mais que o uruguaio. Por outro lado, enquanto no Brasil o produtor rural recebe cerca de R$ 0,18 por litro, na Argentina o preço gira em torno de R$ 0,15 e no Uruguai R$ 0,12. O segredo é simples: produz-se muito e ganha-se menos por uma maior quantidade produzida.
Acrescente-se a isso que, apesar do Brasil ter um rebanho bovino quase seis vezes superior à Argentina e quinze vezes ao Uruguai, nossa produção leiteira está muito aquém dos padrões de competitividade. A média produtiva na Argentina e Uruguai é de cerca de 25 litros/vaca/dia; no Brasil, a média nacional está em torno de 6 litros/vaca/dia. Mesmo na região sul, onde se obtem a melhor produtividade a média não ultrapassa 14 litros, isto é, 45% abaixo dos índices médios de ambos os países. Em relação a pecuária de corte, enquanto no Brasil o abate de um animal dá-se, em média, com a idade de 48 meses - exceto em casos de confinamento nos dois países vizinhos a idade média é de no máximo 30 meses; aqui, o aproveitamento de carne por carcaça é, em média, 52/53%; ali ao lado é de 58/60%.
A pecuária brasileira foi durante muitos anos uma espécie de reserva de valor à empresários ou profissionais liberais, cuja atividade principal não era o campo; ou então, quando havia dedicação exclusiva estava fundamentada no sistema de pecuária extensiva, sem preocupação com qualidade ou produtividade. Hoje, a economia sem fronteiras rompeu definitivamente com o dique do protecionismo e somente os setores dinâmicos conseguirão suportar às exigências do mercado. O que acontece sempre é que os ajustes do mercado são mais penosos para uns do que para outros. por isso, às soluções não podem se limitar apenas ao arcabouço teórico, será preciso por as mãos na massa e enfrentar à questão de frente. Caso contrário, padeceremos eternamente das ‘‘ angústias da globalização’’.

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