A paz dos cemitérios - TT Catalão
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Paris. Por que a imprensa teima ainda em qualificar como guerra do Kosovo o que foi um bombardeio sem resposta do inimigo e com baixas apenas do lado sérvio? E por que ainda insistir em acordo de paz se o que há é uma desonrosa rendição de Milosevic? Estas foram as perguntas principais dos analistas franceses nos principais jornais pós-Blace.
Blace é um lugar histórico do conflito do Kosovo, por onde passaram milhares de refugiados. O café-restaurante Europa 93, propriedade de um albanês, não foi escolhido por acaso para discutir a retirada do Exército iugoslavo. Até nisso se confirma o requinte da Otan para simbolizar a rendição sérvia sob um travo de humilhação.
O pequeno posto na fronteira situa-se a 20 quilômetros de Skopje, a capital da Macedônia, chegou a ser conhecido como a encruzilhada do conflito, ou seja, o primeiro ponto dos quase 1 milhão de refugiados escapando da brutalidade sérvia. E se o êxodo foi rápido, o retorno será um pesadelo longo. Basta ver que cinco anos depois do fim do conflito na Bósnia, ainda há 80 mil pessoas sem rumo.
O general Mike, 55 anos, chamado pelos britânicos de Macho Jacko, é o maestro da rendição sérvia - antes ele integrou a força de manutenção da paz nos Bálcãs, no comando das tropas que se instalaram na Bósnia-Herzegovina entre 1995 e 1996. Além das piadinhas por ser xará do pop-star Michael Jackson, ele tem outro apelido mais indicador do rigor impiedoso que adota: Príncipe das Trevas.
O jornal inglês The Guardian, ao traçar o perfil do cabo de guerra, ressaltou seu ascético estilo por viver em um escritório que parece a cela de um monge e ter um saco de dormir ao lado da mesa de trabalho.
Fluente em russo, ele muito terá o que negociar com a dupla jogada de Moscou em conciliar os previstos 50 mil homens da força de ocupação com os 10 mil do Exército sérvio em uma faixa do Kosovo para, digamos, proteger a minoria sérvia da região.
O ódio é tanto que já se fala em limpeza étnica, agora dos albaneses sobre sérvios. Desarmar a guerrilha albanesa também não será fácil. Michael já sinalizou discretamente que desarma a região na marra. Ou seja, não se espantem se a Otan de repente travar combates isolados com a própria guerrilha albanesa. Seria mais uma insólita situação de quem esburacou um país para salvá-lo.
Administração mais delicada se abre agora com a escolha do novo comandante da Otan. Em jogo, a súbita corrente européia de que não dá mais para depender do xerife norte-americano e sua força. Tais correntes crescem com o tom Uma só Europa da maioria dos candidatos ao Parlamento europeu nas eleições do próximo dia 13 - exceto, obviamente, a direita de Le Pen e seu dissidente Megret, que continuam incitando o ódio aos emigrantes.
A eleição vem preocupando imensamente os europeus em razão da apatia com que a classe média e os mais pobres demonstram pelos debates e interesse em votar. Com o euro despencando nos últimos meses, não há caminho de volta para a Europa fragmentada, mas sim ungida como grande mercado.
O impacto maior dos conflitos no Kosovo se deu nessa percepção brusca de povos miseráveis ainda viverem no tal grande mercado. A busca da moeda unificada se ressentiu da instabilidade. E a dependência militar dos EUA-potência incomoda por isso.
Daí a velocidade imposta na regularização da paz. A paz da terra arrasada. O silêncio óbvio dos cemitérios. A vida sem vida do poder da força. A estupidez gerada pela estupidez maior do lamentável Milosevic e sua desastrada estratégia.
Gandhi dizia que o ódio é uma longa corrente que só seria partida se um elo se rompesse. Com tantos espíritos armados, vai ser difícil achar atitudes amplas e desprendidas para atuar como elos partidos na região. Guerra mesmo foi a imposta aos civis. Sérvios e albaneses. E paz desonrosa é só adiamento temporário de novos conflitos.
Se até em Exu - a região sertaneja que o cantor Luiz Gonzaga tentou apaziguar - duas famílias não se entendem e se matam há anos, imaginem neste conflito secular do Kosovo.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





