A pátria Paraná - Emília Belinati
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de janeiro de 1999
Emília Belinati 
A posse num cargo tão elevado como vice-governadora do Paraná, pela segunda vez, exige, por si só, uma avaliação do que foi realizado e um prognóstico para o futuro. Por isso, peço licença para escrever do meu jeito, como se estivéssemos a conversar como bons amigos, daqueles que se encontram numa esquina da vida e continuam o assunto, sem a premência do agrado. Basta, aos verdadeiros amigos, a história em comum.
Percorri, na última campanha, as nossas cidades e estradas. Aprendi, como se fosse pela primeira vez, a olhar os contornos do meu Estado, essa nossa pequena pátria, tão amada. Deixei que meu coração fosse atrás do meu jeito de olhar e descobri que sou, sempre fui, uma simples mulher do povo.
Volto, portanto, como uma aprendiz, a exercer meu ofício de vice-governadora, o mais alto grau jamais sonhado por aquela menina que dividia a mesa com o pai e a mãe e sete irmãos, numa casa de madeira lá no pequeno patrimônio do Espírito Santo, na região mais antiga de Londrina.
Permitam-me assim voltar ao passado que foi meu, mas que, de certa forma, diz respeito à cada pessoa que comigo compartilha essa geração.
A mãe encerava o assoalho uma vez por semana, varria o cimento da cozinha, queimado com vermelhão, ariava as panelas de alumínio com cinza e servia torresmo com arroz e feijão. O pai tirava todo mundo cedo da cama e orava antes do almoço e da janta, agradecendo a Deus por tantas graças.
Tínhamos nossos sonhos, é verdade, porque era um tempo de fé, trabalho e esperança.
Volto ao passado com o coração. No presente, tenho nas mãos números que, se colocados friamente, retratam uma realidade dura, prevendo tempos difíceis para nós, paranaenses. Porque fazemos parte deste imenso Brasil.
Volto ao passado com o coração, porque acredito que somente através do resgate da confiança de gente de fibra, como meu pai e minha mãe, poderemos colocar a termo, nos próximos anos, esse projeto de transformação que queremos ver concluído.
Em sua essência, os sonhos dos paranaenses, daqueles que conquistaram nosso Estado com as armas pacíficas da agricultura, não mudaram muito. Em 1860, os primeiros migrantes já pediam estradas aos governantes.
Hoje, seus descendentes continuam reivindicando caminhos mais rápidos e seguros. Podem ser caminhos virtuais, tecnologia para exportação, aeroportos equipados, energia, anel de integração de estradas. Mas sempre caminhos.
Nosso governo abriu muitos desses caminhos. E prometeu abrir outros. Mas, o paranaense, assim como o brasileiro, está temeroso. Ainda não tem a convicção absoluta que a fábrica moderna que vai para sua região se traduz no emprego para o filho no futuro. Teme ficar à mercê desse desenvolvimento inegável e eficaz que nós estamos implantando em todo o Estado. São filhos e netos daqueles homens e mulheres que vieram de tão longe e deram ao Paraná a sua fisionomia humana, particular e típica.
É preciso ir de coração ao encontro dessa gente. É preciso abrir a porta da nossa casa com os argumentos da sinceridade e da transparência no Governo. Com a vivência dos problemas e características de cada cidade, de cada região.
O Paraná é um só. A verdade também. E a equipe de governo deve ser uma só. O que nos une é o passado, o que vivemos, seja em Ubiratã, Barracão, Cianorte, Londrina, Guaíra ou Curitiba. Nesse passado está a força do homem e da mulher do Paraná, gente que não recusa trabalho, nem deixa de ter fé.
Nossa função, como governantes, é responder a esses anseios. Estou trazendo para o segundo mandato este olhar de mulher do povo. Quero que me expliquem e quero explicar tudo o que acontece na administração. Sem meias-palavras, sem medo de críticas, de reconhecimento dos próprios erros e enganos.
Confiança, todos sabem, não se tira dos projetos e programas de governo feitos ou perfeitos. Confiança vem de dentro da gente.
Será preciso ouvir. E retribuir com nosso trabalho cada voto depositado nas urnas. Por isso cometo a redundância para não perder de vista a clareza.
Ou como diz a poeta Adélia Prado, num dos belos trechos da nossa literatura: Quero que me governe um homem bom e justo, que cuide para que, chegando a noite, todo mundo vá dormir cedo e cansado, com tanto trabalho que tinha pra fazer e foi feito. Quero ter o gosto de tirar meu chapéu pras autoridades e destampar meu caldeirão esmaltado, com quatro variedades, todo santo dia. É disso que todo mundo precisa: fartura e respeito.
Feliz Ano Novo. E que Deus abençoe a todos.
- EMÍLIA BELINATI é vice-governadora do Paraná.


