A Pátria, agora, com os pés no chão
Desamarrem as sandálias e descansem! Este chão é terra santa, irmãos meus... Venham, olhem e renovem a esperança... Esse culto santo à humildade, toada de missa dominical, é um bom enquadramento, como nos ensinam os católicos despojados. Num paralelo, assim, bem sutil, vale dizer que a Seleção que volta, curvada, da África não saltitou de tamancos, não carregou esnobismos e, em nenhum momento, se fez arrogante. Foi a Seleção da humildade, das sandálias. Portanto, façamos um boa limonada desse limão, talvez providencial, que nos deram os holandeses.
A Pátria agora é a Pátria, e não a taça. A Pátria não é hexa, é a realidade. Não faltarão trocadilhos para imbecilizar ainda mais o torcedor fanático. Mas o olhar, a partir de hoje, é para algo que nos aflige muito mais. A Pátria derrotada não é a que saiu de campo ontem, é aquela onde todos jogam. Mudemos o outro jogo para que ninguém seja expulso pelo autoritarismo; que o voto não seja um gol contra a cidadania, e que tenhamos um olhar mais crítico para aqueles que, em minutos, podem adulterar o placar dos nossos sonhos.
Talvez seja esse o recado do Estádio Nelson Mandela Bay. Sejamos menos críticos da Seleção de sandálias e mais atentos com os passos daqueles sapatos que brilham e flutuam nos densos tapetes de palácios suntuosos. Porque é lá que estão enchendo os bolsos de goleada.
Perdemos a Copa. Mas, quem sabe, agora livramos o povo de pelo menos uma anestesia. Ganhar é bom, inclusive no jogo da bola. Difícil é avançar no jogo da cidadania. Pena que as coisas são excludentes; deviam ser complementares com o futebol amadurecendo as pessoas, mas não é, infelizmente. Então talvez tenhamos que dizer: desabou um circo. Logo vem outro por aí, contando maravilhas. Não cantemos o gol da atrofia política.





