A patologia emergente
A patologia emergente
TT Catalão
Muita gente questionou o espaço dado a constrangedora festinha canina das socialites cariocas, há poucos dias, ao lado do caso de uma menina atingida por um raio. Acharam desperdício. Mas era um fato. Vergonhoso, mas faz pensar. Em jornalismo, conexão de contrários pode ser mais explícita, editorializada como opinião, ou pode ser mais sutil. Colocadas lado a lado, fica a sugestão discreta de uma leitura só: enquanto senhoras gastam com o supérfluo, um ser humano, sem ter moradia, fica exposto e é atingido por um relâmpago.
O que procede no episódio, pela reação dos leitores, é que muitos perceberam e fizeram a ponte reflexiva entre os fatos. Tem mais gente avaliando a mídia com olhar crítico. E não são ombudsmans profissionais, nem teóricos de semiótica vendo entrelinhas e intenções ocultas. É o leitor comum que exige um jornal melhor, mais interessante e mais próximo de si nos mínimos detalhes.
Leitores, aos poucos, vão adquirindo informações sobre o processo de se editar notícias. Percebem manhas no título, truques visuais, ênfases em pontos não relevantes, omissões quando deveria haver manchete, enfim, é salutar que a cada dia estejamos mais expostos às críticas. Mesmo as injustas, ou digamos, mais emocionais, temperadas por ideologia partidária, pressa ou má-fé.
O episódio das dondocas em autopromoção, objetivo consagradamente atingido pela repercussão, tem que despertar um sentido indignado na atitude patologicamente alienante dos chamados emergentes novos ricos deslumbrados com o súbito poder de faturamento. E é uma cultura globalizada se pegarmos similares de tal tribo em todo os centros do mundo. Eles foram clonados em hábitos, padrões de consumo, visões da realidade e até vocabulário próprio.
Os europeus, sob séculos de cultura, adoram identificá-los em festas e são mordazes com os equívocos naturais dos que se acham cultos por possuir muito dinheiro. Os norte-americanos e japoneses os que abandonaram a magnífica herança cultural do país fingem que não ouvem a esnobada e desafiam: Se rirem de mim eu compro este museu, esta rua, esta casa, este país...
Mas no Brasil, as patéticas demonstrações do deslumbre não beiram só ao ridículo mas ao escárnio. Pela proximidade miserável, principalmente. Não que todos deveriam ser discípulos franciscanos ou vivessem autocastrados em prazer e acesso a confortáveis bens que o dinheiro pode comprar. Mas perdemos a visão de limite quando não enxergamos mais a presença do outro.
Viram seres mimados que se isolam até chegarem a esta pasteurizada sociedade teletubbies insossa, vaga, horrendamente brilhosa, miméticos. São capazes de aí sim idolatrados como símbolos midiáticos até acreditarem no triste papel que inventaram para si e tão canhestramente desempenham. Os cães ladram e as carapuças passam por cima.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





