A partidarização das universidades
A situação das universidades públicas federais não pára de se deteriorar. Situação tanto mais lamentável que é todo um trabalho de décadas que se corrói progressivamente, sem que medidas de reativação sejam adotadas. Não há bandidos e mocinhos nessa história.
Nos últimos anos presenciamos um crescimento enorme das universidades privadas em detrimento das públicas. Dessa maneira, foi atendida uma demanda de ensino superior. Ocorre, contudo, que, salvo exceções, essas universidades não logram oferecer uma formação equivalente, nem favorecem a pesquisa. E tal crescimento foi propiciado pela atual política governamental.
O salário líquido mensal de um jovem doutor que ingressa nas universidades não ultrapassa R$ 2 mil. O preenchimento de vagas torna-se progressivamente mais difícil nos níveis requeridos de qualificação. As dificuldades, para não dizer o desânimo, de jovens pesquisadores que dedicaram anos de estudos para concluir o seu doutorado é outro fator que acentua a decomposição observada nas universidades. Embora não haja estatísticas a respeito, é cada vez maior o número de pessoas que realizam trabalhos colaterais para sobreviver. Produz-se, assim, uma espécie de privatização branca da universidade.
Iniciativas sérias, como a da Capes, de estabelecer uma avaliação da pós-graduação brasileira, quase não têm efeito na distribuição dos recursos orçamentários destinados às universidades. Embora um progresso tenha sido feito nessa direção, continua havendo uma disparidade enorme entre qualificação e distribuição de recursos.
De forma ainda mais decisiva, nenhum progresso significativo foi obtido na implementação da autonomia. É evidente que o modelo administrativo das universidades públicas faliu. Burocracia enorme, problemas gerenciais, lentidão de decisões, não-diferenciação entre professores que trabalham e pesquisam intensamente e aqueles que apenas cumprem com suas obrigações cotidianas, funcionários desmotivados. O modelo acadêmico, ao contrário, tem demonstrado pujança e desenvolvimento tanto na qualificação quanto na pesquisa. A situação só não é melhor devido à burocratização.
O governo tem tido uma política oscilante em relação a essa questão. Ora avança uma discussão da autonomia, apresenta um projeto, ora recua, seja por incerteza de sua própria proposta, seja pelas reações da comunidade universitária. Qualquer reforma é dolorosa. Sempre contraria interesses. O problema, porém, é que a inação é a pior das soluções. Ela cria um caldo de cultura que pode desandar a qualquer momento, como na última greve, quando as autoridades não perceberam o descontentamento que vicejava.
Do lado das corporações, a situação não é melhor. Boa parte dos reitores recua diante de posições mais sérias de discussão da questão universitária, jogando toda a culpa no ministério com medo de descontentar as suas corporações, na verdade bases de apoio eleitoral. Os professores produziram um duplo movimento: a) o de defender interesses corporativos, desvinculados, em parte, da boa formação discente e do desenvolvimento da pesquisa; b) o de ideologizar toda discussão, como se tudo fosse culpa do governo e do FMI. Basta ler os boletins das associações docentes, que se tornaram uma espécie de PT News. Constatamos o mesmo tipo de movimento no campo dos funcionários, onde a partidarização e a defesa de interesses particulares são ainda mais presentes.
Estamos no sétimo ano do governo Fernando Henrique. As questões centrais da universidade até hoje não foram enfrentadas. O presidente é um universitário que encontra dificuldades em ser reconhecido na sua comunidade de origem. Isso não deixa de ser paradoxal, sobretudo tratando-se de conhecimento. O ministro Paulo Renato, também professor, foi reitor da Unicamp. Os professores já não o reconhecem nessa posição. Talvez estejamos vivendo os últimos meses de uma reforma possível da universidade no atual mandato. Os prazos se esgotam rapidamente. A sucessão presidencial já está saindo para a rua. O próprio ministro tem seu nome cogitado e a sua atitude em relação à universidade pesará certamente em ano eleitoral. O PT, por seu lado, joga no dissenso universitário para alavancar o próprio candidato. A universidade, no fio da navalha, corre perigo.
- DENIS LERRER ROSENFIELD é professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor de Política e Liberdade em Hengel e O que É Democracia





