A pandemia, a vida e a morte
"Em época de flagelos, a morte invade nossos pensamentos, ela se posta em nossa frente e solicita muito mais atenção que no dia a dia normal"
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segunda-feira, 20 de abril de 2020
"Em época de flagelos, a morte invade nossos pensamentos, ela se posta em nossa frente e solicita muito mais atenção que no dia a dia normal"
Espaço Aberto 
Gostaria de lembrar, nesse espaço, algumas coisas que o admirável romance “A peste”, de Albert Camus, pode nos dizer sobre a pandemia do novo coronavírus. Permitam-me tomar como referência a seguinte passagem. “Os outros dizem: ‘É a peste, tivemos peste’. Só faltava pedirem condecorações. Mas que vem a ser a peste? É a vida nada mais”.
Essas palavras parecem dizer muito pouco, além de transmitirem certa indiferença cínica e irresponsável. Mas quando pensamos na pandemia e no vínculo estreito que ela tem com a mortalidade humana, com o fato de que pessoas que amamos ficam doentes, morrem, que nós temos um corpo que sofre as mais diversas dores, que temos medo, que somos também nós mortais, sim, que eu que agora digito essas palavras nessa tela não mais existirei, as palavras podem merecer mais atenção. Quando penso que serei um nada como era um nada antes de ter nascido, que minha respiração cessará, meu corpo definhará em pó, que você também irá regressar ao nada, enfim quando nos damos conta desse saber que sempre trazemos, mas que preferimos, no mais das vezes, deixá-lo sossegado num canto, quando esse saber vem para o centro da sala, aí as palavras da personagem de “A peste” podem adquirir alguma relevância.
Em Manaus, corpos de mortos em macas próximas a pacientes em coma. Em Guayaquil, corpos de mortos colocados na frente das casas. Números impressionantes de mortes nos EUA, Itália, França, Espanha. É difícil a sensibilidade comum não ficar impressionada com isso. Porém, a humanidade já passou por isso, o Brasil já passou por isso. A história está repleta de casos de epidemias, pandemias, pestes. No Brasil já tivemos o terrível sofrimento da gripe espanhola. Mas faz tempo. Agora tudo está próximo. Talvez haja exagero nas notícias. Contudo, quem poderá negar o fato de que o planeta está vivendo um momento crítico causado justamente pela manifesta e aflitiva presença da pandemia?
Em época de flagelos, a morte invade nossos pensamentos, ela se posta em nossa frente e solicita muito mais atenção que no dia a dia normal. É mais fácil conviver com verdades que nos arrebatam em alguns momentos, mas aquela amarga verdade que quer se impor a todo momento, que não cansa de relatar números de mortes, infectados, trancafiados em suas casas, desesperados com a miséria, pisados pelo poder político, a morte e o sofrimento, assim tão presentes, são indigestos. É isso, a meu ver, que a personagem de “A peste” quis dizer com “é a vida”. Não quis dizer “é vida, danem-se os outros”. Ela quis dizer que, no fundo, as coisas sempre foram assim. Apenas estamos agora mais diretamente confrontados com o que é a vida. Agora a vida pesa mais.
É a solidão de seres sem Deus, crentes ou não, mas todos perdidos num cosmos sem sentido. Sobretudo, trata-se de nossa fragilidade e natural impotência diante da morte. Mas isso soa parcial, pois a vida que põe a morte olhando fundo em nossos olhos assustados, também é plena de sentido em atos generosos, no amor, na amizade. Também isso é humano, como é o egoísmo com toda sua mesquinhez. O novo coronavírus convida à compreensão e tolerância com a humanidade dentro de cada de um nós, compreensão e tolerância com suas belas virtudes e seus detestáveis vícios. Isso é algo que se pode aprender lendo “A peste” de Camus. Também se aprende com esse livro que compreensão e tolerância não significam condescendência com o mal. Ao contrário, Camus pretende que jamais devemos abandonar nossa bússola moral, que deve ser sempre precisa, ao menos em seus largos contornos, pois nos detalhes não há rigor. A moralização dos detalhes não passa de uma casuística, não passa de veemência de almas autoritárias.
Aguinaldo Pavão, doutor em filosofia pela Unicamp e professor de Filosofia na UEL


