O recuo do governo em relação às normas que regulam os fundos de investimentos, na quarta-feira passada, representa o reconhecimento do Banco Central, embora não assumido, de que errou ao antecipar a mudança na forma de remuneração dessas aplicações.
A medida, que deveria vigorar apenas em setembro deste ano, véspera das eleições, foi antecipada pela equipe econômica para o final de maio. Isso provocou uma corrida súbita de pequenos investidores para aplicações mais seguras, como a poupança, e empurrou os que têm grandes somas diretamente para o mercado de câmbio. O resultado, amargo, é bem conhecido: o dólar disparou.
Assistindo a decolagem da cotação do dólar, sem recuo satisfatório mesmo depois do anúncio de empréstimo de R$ 30 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Brasil, o Banco Central decidiu voltar atrás e suspendeu a chamada ''marcação a mercado'' dos fundos DI e de renda fixa. Por esse mecanismo, o banco deve calcular diariamente quanto cada título do fundo está valendo e repassar o preço apurado ao valor da cota, proporcionalmente ao seu peso na carteira e prazo de vencimento.
Depois do estrago feito, com o valor do dólar em nível recorde e a fuga bilionária de recursos dos fundos, ficou o dito pelo não dito. A regra está cancelada e, como se nada tivesse acontecido, o velho sistema de remunerar as aplicações volta à cena. Com a medida, o governo faz um ''mea culpa'' discretíssimo de que errou redondamente no diagnóstico da economia naquele momento. A confissão deveria ter sido declarada. Afinal, os candidatos à Presidência têm carregado, desde então, todo o ônus do nervosismo do mercado.
Injustamente. O cenário de maio, quando a antecipação foi definida, era de juros em alta. Os títulos da dívida pública base de até 80% das carteiras que formam os fundos DI e de renda fixa estavam, portanto, em processo de desvalorização. Com a medida do BC, essas perdas foram imediatamente transportadas para as aplicações, assustando brasileiros de todos os cacifes financeiros que depositaram alguns reais e toda a confiança nos fundos. A queda de rentabilidade dos investimentos era absolutamente previsível.
Caso a nova modalidade de remuneração fosse adotada em outubro, passada a fase de turbulência política, a medida teria infinitamente mais chances de emplacar. A pergunta que cabe, diante desse quadro, é quase automática. A quem a pressa do BC em mudar a regra prejudicou? Investidores, indistintamente, e sem dúvida o candidato do governo à Presidência, José Serra.
Poderíamos dizer que restou a Fernando Henrique Cardoso e companhia o consolo do aprendizado, se eles não estivessem na linha de chegada no comando do País. Decisões em economia só devem ser tomadas quando se está certo do impacto que terão no mercado. Vôos cegos embutem altos riscos e, com frequência, desastres irremediáveis.

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