A orgia da globalização
O encontro mundial contra a globalização econômica sem freios nem agendas sociais, em Porto Alegre, reúne representantes dos trabalhadores e de organizações do Brasil e do exterior. Em Davos, os países ricos e globalizadores congregam a nata dos respectivos governos, para defender seus interesses.
Além de exaltarem a globalização, hoje arma de domínio do mundo que arrasou a ex-URSS e outros países tão importante quanto o arsenal nuclear dos Estados Unidos, os porta-vozes de tal sistema querem mostrar quão benéfico ele é para as nações pobres ou em desenvolvimento. Acham que reagir à nova realidade econômica, expropriadora de riquezas, é um anacronismo ditado por idéias nacionalistas superadas.
Desde o século XV, com os descobrimentos marítimos repetem esses papagaios já existia mundialização. Nem por isso o mundo acabou. E as riquezas mentem eles espalharam-se por toda parte.
A globalização não é tão nova nem é bem assim. Vem da antiguidade, com os empórios fenícios. Continuou para resumir com as colônias gregas e, depois, as romanas, sustentadas por suas tropas e respectivas culturas, muito antes das grandes navegações e de Afonso de Albuquerque dominar os mares com suas naus e assentar feitorias estratégicas de Portugal na Ásia.
O que resultou disso? Propagou-se mundialmente a dominação colonial, levada a extremos pelo poder naval e a pirataria britânica nos mares da África, Ásia e Américas. Os maiores defensores atuais desse neoliberalismo global, os EUA, foram os primeiros a livrar-se dele, derrotando os colonizadores, que tentavam manter-se no país, com o laissez-faire de mão única, a favor, claro, do comércio britânico. Hoje, porém, os EUA não se pejam de impor a outros povos os males desse mesmo sistema, contra o qual guerrearam, até se tornarem independentes.
Os neoliberais odeiam ser assim chamados. De fato, eles não são neos, são páleos, paleoliberais, pois defendem as teses da economia anti-social e fóssil de Adam Smith, que, imposta na marra, só faz crescer o número de pobres no mundo.
O novo presidente dos EUA, Bush, cujo governo acaba no início de 2005, quer estender logo os grilhões da Alalc a toda a América do Sul, e não em 2005, conforme se previa. Com esse instrumento além da ONU, OMC, FMI, Banco Mundial e do G-8, Bush inibirá, quando quiser, o fluxo comercial, tecnológico e financeiro necessário ao progresso social das nações sul-americanas.
Mas a América Latina reage, em Porto Alegre, à consolidação das injustiças da globalização selvagem. Que é, hoje, o fundamentalismo da seita do dinheiro e dos negócios, cujas orgias exigem mais sacrifícios do trabalho nunca do capital e menos sentimento de pátria nos países pobres jamais nos ricos.
Assim foi no auge do colonialismo. O que, para os colonizadores e muitos colonizados, parecia normal e deleitável. Deles eram a forca e as leis que puniam os Tiradentes nas colônias.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





